Por que o Irã prefere distância da crise do Catar

Shabnam von Hein (md)

Simpatia da liderança do emirado por presidente iraniano não agrada ao governo saudita. Mas Teerã opta por cautela, temendo nova guerra no Golfo e dar fôlego a forças ultraconservadoras internas."A situação na região do Golfo é muito imprevisível. Não precisamos de mais turbulências", afirmou o chanceler iraniano, Mohammed Javad Zarif, na segunda-feira. Uma tensão adicional, disse então, poderia levar a um desastre. Os meios de comunicação iranianos têm coberto a crise de Catar com cuidado, provavelmente uma indicação da preocupação generalizada em Teerã sobre a possibilidade de uma nova guerra no Golfo Pérsico. No meio do Ramadã, vários países árabes, sob liderança saudita, decidiram no início da semana passada impor um bloqueio ao Catar, acusando o país de apoiar financeiramente grupos terroristas. A fronteira terrestre da península do Catar foi fechada, e os voos dos Estados árabes para a capital, Doha, foram suspensos, eliminando efetivamente as rotas de abastecimento para um país que é quase completamente dependente de alimentos e água potável importados. Pouco depois que o embargo começou, uma associação comercial iraniana ofereceu-se para fornecer bens necessários ao Catar dentro de 12 horas. No entanto, o Irã foi lento em fornecer suprimentos para o vizinho do outro lado do Golfo. Foi quase uma semana após a crise ter começado que cinco aviões decolaram para o Catar, levando 90 toneladas de alimentos frescos. "É uma situação precária. O governo reformista em Teerã está, portanto, agindo com muita cautela", avalia Ali Sadrzade, especialista em Irã da rádio estatal alemã Hessischer Rundfunk. "Esta primeira entrega ao Catar também foi um ato simbólico", ressalta, acrescentado que as prateleiras de supermercados no Catar há muito foram reabastecidas com mercadorias da Turquia. Simpatia pelo Irã O Irã, que é majoritariamente xiita, tem pouco interesse em se meter em uma briga entre os reinos sunitas no Golfo Pérsico. Isso também se deve ao fato de que uma notícia falsa plantada no site da agência de notícias estatal do Catar tenha sido o provável estopim da crise. De acordo com o artigo, o líder do Catar, o emir Tamim bin Hamad al-Thani, descreveu o Irã como um "poder islâmico" e disse que "uma relação de adversidade com o Irã não fazia sentido" – uma declaração que não foi bem recebida pela Arábia Saudita. As declarações simpáticas ao Irã do líder do Catar podem ter sido falsas, mas sua conversa telefônica cordial com o presidente iraniano, Hassan Rouhani, não foi. Ele telefonou para Rouhani para parabenizá-lo por sua vitória de reeleição pouco depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter feito seu discurso de 21 de maio em Riad, com duras críticas ao Irã. A chamada colocou o Catar fora da linha com os outros países da região, apenas um dia depois que a Arábia Saudita, com o apoio de Trump, declarou a criação de uma frente contra a influência do Irã. Em seu telefonema com o presidente iraniano, Thani teria destacado que os problemas atuais só poderiam ser resolvidos com diálogo e negociações. O tom conciliador claramente contribuiu para as atuais tensões entre o Catar e a Arábia Saudita. As relações entre a Arábia Saudita e o Irã têm sido tensas desde a Revolução Islâmica de 1979. O Irã se considera uma potência protetora dos muçulmanos xiitas; a Arábia Saudita, como a dos sunitas. Os países competem por influência em vários Estados árabes. No conflito da Síria, Teerã apoia o presidente sírio, Bashar al-Assad, enquanto Riad apoia a oposição armada. No Iêmen, a Arábia Saudita está liderando uma guerra contra os rebeldes houthis e os rotulando de fantoches de Teerã. Relações tensas Apesar de sua suposta aproximação, ainda há pouca confiança entre o Catar e o Irã. Os dois países dividem uma fronteira marítima de 250 quilômetros de extensão, onde compartilham o maior campo de gás natural do mundo, South Pars. Isso já levou a conflitos. Quando o Irã estava sob sanções severas por causa de seu polêmico programa nuclear, incapaz de atuar como exportador, o Catar tirou proveito sozinho do campo de gás. Ambos os Estados têm ideias diferentes sobre o transporte de gás: o Catar quer um oleoduto através de Arábia Saudita, Jordânia e Síria até a Turquia, onde o gás pode ser enviado à Europa. No entanto, o Teerã planeja um gasoduto saindo do Irã através do Iraque e da Síria, levando ao Mar Mediterrâneo. Cinco anos atrás, o Irã fechou um acordo para tal com o líder sírio Assad, mas a guerra na Síria pôs fim ao projeto de bilhões de dólares. Um maior envolvimento do Irã na atual crise do Catar pode se mostrar contraproducente – motivo pelo qual a liderança em Doha prefere abrir mão do apoio de Teerã. "O Catar não se voltará para o Irã nesta crise", acredita o politólogo Sadegh Zibakalam, da Universidade de Teerã. "Eles não querem provocar ainda mais a Arábia Saudita. O Catar está tentando gerenciar esta crise com a ajuda da Turquia e do Paquistão". A liderança iraniana provavelmente também continuará cautelosa, por razões domésticas. De outra forma, poderosos círculos conservadores no Irã – como a Guarda Revolucionária –, que gostariam de enfrentar a Arábia Saudita, podem ganhar novo ânimo.

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