O movimento contra o governo Maduro nas metrópoles brasileiras

Guilherme Henrique

Venezuelanos de classe média que se estabeleceram em São Paulo e Rio de Janeiro apoiam compatriotas em protestos e com o fornecimento de medicamentos e produtos de higiene pessoal."Trouxe minha mãe para o Brasil, não quis arriscar. Eu tinha que ter ido em março [à Venezuela], mas não fui", diz, com voz entrecortada, a esteticista Maria Fuentes, 38 anos, que vive em São Caetano do Sul, região do ABC paulista. A rotina de duas viagens por ano ao país desde que se mudou para o Brasil, em 2006, está suspensa. "Vai que eu vou e não volto?", questiona. Natural do município de Cagua, a pouco mais de 100 km de Caracas, Kent Alexander, 43 anos, deixou sua casa para viver de aluguel no Parque Novo Mundo, zona leste da capital. "Saí da Venezuela porque sou contra o regime atual, então vivia em uma situação angustiante", relata o acupunturista, que chegou ao Brasil no dia 29 de maio. No Rio de Janeiro, o venezuelano William Clavijo enumera os erros que levaram o chavismo à catástrofe política que assola o país nos últimos anos. "Eles não souberam conduzir a extração de petróleo e o gerenciamento da PDVSA", afirma o doutorando em Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Maria Fuentes, Kent Alexander e William Clavijo, ouvidos pela DW, exemplificam um movimento crescente na América Latina: o deslocamento de venezuelanos para o Brasil. São Paulo e Rio de Janeiro tornaram-se um refúgio para imigrantes que buscam fugir da inflação 65,5% no 1° trimestre de 2017 – segundo dados da Comissão de Finanças da Assembleia Nacional – e da crise humanitária decretada pela mesma Assembleia em março, alegando que a escassez de produtos básicos no país chegava a 90%. Apoio nos protestos Maria Fuentes e William Clavijo fazem parte de grupos engajados com a situação da terra natal. A página "Venezuelanos Residentes em São Paulo" é fechada e tem pouco mais de mil participantes, entre pessoas que moram e outras que já deixaram o estado, mas que seguem ativas transportando medicamentos e produtos de higiene pessoal, principalmente. Os participantes também demonstram apoio aos compatriotas com protestos. "Fizemos passeatas todos os fins de semana de abril até o fim de maio. O número chegou a 70, 80 pessoas", relata Fuentes. Embora a adesão não se compare aos milhares que marcham nas ruas de Caracas, ela explica que busca fazer parte do movimento. "Quando começaram os protestos lá, no início de abril, percebi que precisava ajudar de alguma forma", diz Fuentes. No Rio de Janeiro, William Clavijo afirma que as manifestações na praia de Copacabana reuniram em torno de 60 pessoas. "Nosso próximo passo será organizar um dossiê com informações sobre os problemas políticos e humanitários existentes lá", revela. Explosão no número de refugiados O alto número de pedidos de refúgio por venezuelanos no Brasil tem dificultado a uniformização dos dados por parte da Polícia Federal, do Conare (Comitê Nacional para Refugiados) e do Ministério da Justiça. Em contato com a reportagem da DW, o Ministério da Justiça informa que de janeiro a maio deste ano, o número de solicitações foi de 3.971. O aumento do fluxo é significativo, já que em todo o ano de 2016 foram solicitados 3.375 pedidos. Se comparado a 2015, por exemplo, o número não chega a mil. Leia também: Da prosperidade à fome: o comércio na fronteira com a Venezuela Kent Alexander acredita que o fluxo de venezuelanos no Brasil vai aumentar nos próximos meses. "Ainda não tenho conta em nenhum banco e só consegui tirar meu CPF. Mesmo assim, tenho sentido das autoridades brasileiras uma abertura para nos receber, então acho que outros virão", diz. Leia também: Venezuelanos qualificados vivem de bicos no Brasil Para William Clavijo, há um sentimento comum de que viver no Brasil é a melhor opção, sem se dar conta do panorama político nacional. "A imigração de venezuelanos tem crescido, mas o Brasil também não vive um bom momento. Além disso, o Estado brasileiro te dá um prazo de dois anos como refugiado, mas não há nunhuma garantia de inserção no mercado de trabalho ", reitera. Venezuela: uma crise sem fim O número de vítimas nos confrontos entre manifestantes e as Forças Armadas Bolivarianas já passa de 70 desde abril deste ano, quando as ruas do país foram tomadas pela insatisfação de parte da população contra a inelegibilidade de Henrique Capriles, principal líder da oposição e proibido de disputar eleições pelos próximos 15 anos, a falta de produtos básicos de higiene, a escassez de medicamentos e a dificuldade para conseguir alimentos em mercados convencionais. O embate político entre oposição e situação envolve a antecipação das eleições presidenciais programadas para dezembro de 2018, liberdade para presos políticos, ajuda humanitária estrangeira e a retomada da autonomia da Assembleia Nacional, controlada pelo Tribunal Supremo de Justiça (máximo instituição Judiciária do país e regida pelo chavismo). "O diálogo só funciona quando ambos os lados estão comprometidos. Até agora, não há evidências de que o regime atual tenha esse compromisso", afirma à DW o professor Ned Strong, diretor do David Rockfeller Center For Latin American Studies, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Com opinião semelhante, Yanina Welp, que é codiretora do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Zurique, na Suíça, ressalta que os conflitos sociais e políticos alcançaram a esfera do inaceitável. "O conflito já foi longe demais. A falta de diálogo no nível político não corresponde apenas ao eixo entre governo e oposição. Há divisões dentro do próprio governo, entre aqueles que defendem o legado de Hugo Chávez e aqueles que tentam promover uma Assembleia Constituinte totalmente fora da lei", pondera. Caminho para superar a crise O reestabelecimento das atividades democráticas na Venezuela é um consenso para a diminuição dos protestos. Em outubro do ano passado, o Conselho Nacional Eleitoral adiou as eleições para governadores para o primeiro semestre de 2017. No início de maio, Maduro deu início à formulação de uma Assembleia Constituinte, com o intuito de escrever uma nova Constituição e "reformar o Estado". A oposição alega que a alternativa é um golpe de Estado. "Eu acho que o governo claramente tem inclinações ditatoriais. Ele fez coisas que reconhecemos como ditatoriais, como a convocação de uma Assembleia Constitucional pré-manipulada, a prisão ou a expulsão de opositores políticos, o fechamento de canais de TV a cabo", explica David Lehmann, professor emérito do departamento de Ciências Sociais da Universidade de Cambridge. Para tentar conter o ímpeto da população contra o governo, o presidente Nicolás Maduro concedeu um aumento de 60% no salário mínimo no início do mês passado para aposentados e funcionários públicos. Foi o terceiro reajuste só neste ano, alterando os vencimentos para 65 mil bolivares, cerca de 90 dólares. Enquanto não há uma definição sobre o futuro, a manipulação midiática promovida por oposição e situação e a falta de informações verídicas sobre a real situação econômica do país – o Banco Central Venezuelano não divulga dados econômicos do país desde meados de 2015 – ajuda a compor um cenário incerto. "Ele deve renunciar e convocar eleições gerais se tiver alguma esperança de manter sua dignidade. No entanto, acho que ele não tem motivação para fazer isso. A partir daí, tenho medo de que tudo acabe em violência", afirma Ned Strong. "Maduro será forçado a sair", diz David Lehmann. "O que pode ser pior é a substituição dele por outro militar. Isso pode intensificar a violência e a repressão", completa. Entre críticas e ponderações acerca da crise venezuelana, Maria Fuentes segue a espera de um desfecho. "Eu não sei se os protestos vão continuar, se as pessoas seguirão na rua, se o governo vai cair. O que eu sei é que não posso voltar ao meu país com essa insegurança e incerteza. É triste".

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