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Opinião: A autodestruição da memória de Helmut Kohl

Jens Thurau

23/06/2017 11h42

Recusa de Kohl - ou de sua viúva - de um ato de Estado alemão em memória do ex-chanceler é estúpida e arrogante e revela uma estranha visão sobre o próprio papel na Reunificação, opina o jornalista Jens Thurau.Que tragédia! Nesta quinta-feira (22/06) estavam reunidos no Bundestag (Parlamento alemão), o presidente da Alemanha e dois de seus antecessores, como também todo o gabinete ministerial e quase todos os deputados federais. O presidente da casa, Norbert Lammert, falou sobre o ex-chanceler federal Helmut Kohl no que não apenas se pareceu com um ato de Estado – na verdade, foi um. Mas um marcado pelo constrangimento.Lammert elogiou o legado de Kohl, o que se espera de qualquer pessoa com um mínimo de discernimento. Mas ele também encontrou palavras críticas sobre – para usar uma expressão cuidadosa – o comportamento social questionável do ex-chanceler. Ninguém da família Kohl esteve presente.Em termos de homenagens alemãs, não haverá mais muito para o homem que conseguiu a façanha de reunificar o país após décadas de sofrimento e sem que fosse disparado um tiro.A responsabilidade por tudo isso – se se trata de ordens de Kohl ou de planos de sua esposa – é outra questão. O fato é que haverá, no dia 1° de julho, um ato de Estado europeu em Estrasburgo, seja lá o que isso signifique. Apenas com muito esforço e muita discrição, a Chancelaria Federal conseguiu impor o nome de Angela Merkel para falar no serviço memorial. Em outras palavras: Kohl – ou sua esposa – não queria nenhum orador da Alemanha. E muito menos uma cerimônia oficial em solo alemão.Está claro que, entre os políticos alemães, não sobrou um que o antigo chefe de governo não considerasse um traidor. Por isso, quem deveria discursar no funeral é o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que embora pisoteie a democracia em seu país, preenche o principal pré-requisito no mundo dos Kohl: nunca expressou nem sombra de crítica ao chanceler da Reunificação.Lammert encontrou as palavras certas. Segundo o presidente do Bundestag, a homenagem a Kohl não seria, "com todo respeito, apenas um assunto de família." Aqui, a palavra "família" se refere a somente uma pessoa: a viúva de Kohl, Maike Kohl-Richter. Seu filho mais velho do primeiro casamente está atualmente impedido pela polícia de entrar na casa do pai. Até onde vão as fendas que se abrem nesse triste episódio?É de fato válida a pergunta sobre por que deveria interessar a um cidadão alemão, quase 27 anos após a Reunificação, se o arquiteto desse acontecimento mundial não quer ter nada que ver com os atuais representantes de seu país, mesmo depois de sua morte.No entanto, isso diz muito sobre a visão pessoal de Kohl: quem não o apoiasse sem reservas pertencia ao lado escuro do poder. Todos os sucessores de Kohl – seja na Chancelaria Federal, em seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), ou onde quer que fosse – sempre reconheceram o seu papel crucial na época da queda do Muro e da Reunificação, e isso quando ele ainda era vivo. Mas isso não bastava para ele. Muito menos para a sua viúva.Essa visão é egocêntrica e presunçosa. Pois Kohl foi o chanceler federal da Reunificação, mas ela foi iniciada pela revolução pacífica na antiga Alemanha Oriental – feita nas ruas por corajosos homens e mulheres. E o Tratado da Unificação está ligado ao nome de Wolfgang Schäuble, com quem Kohl – que surpresa! – veio a brigar mais tarde. Muitas pessoas estiveram envolvidas para que aquele feliz momento tenha acontecido.Agora se nega aos alemães uma cerimônia oficial própria. Isso é estúpido e arrogante. E lança um olhar sobre a visão que o próprio Kohl aparentemente tinha sobre a época da Reunificação e talvez sobre toda a sua vida política: não importa sobre o quê, era sempre ele que tinha razão. Que deplorável.