Opinião: O islã liberal é uma quimera

Loay Mudhoon

As reações de rechaço a uma "mesquita liberal" em Berlim não causam surpresa. Por outro lado, não devem ser tomadas como prova de que o islã, em geral, seja incapaz de se reformar, opina o jornalista Loay Mudhoon.A inauguração de uma mesquita declaradamente "liberal" dentro de uma igreja protestante, no bairro berlinense de Moabit, foi descrita como um "evento de global no coração de Berlim". E, a julgar pelas reações entusiásticas, tanto no país como no exterior, essa avaliação era justificada. Representantes da mídia de todo o mundo queriam estar presentes quando a advogada turca-alemã e ativista dos direitos femininos Seyran Ates apresentasse ao público o seu projeto de reforma: a Mesquita Ibn Rushd-Goethe acolhe a todos os muçulmanos, independente de orientação religiosa ou sexual. Mais ainda: como única do gênero na Alemanha, a casa de oração integrativa aboliu explicitamente a segregação dos sexos durante as preces. Um homem e uma mulher lideraram juntos a primeira oração de sexta-feira. E – um detalhe importante, dados os acalorados debates a esse respeito neste país – a "imame" não cobria a cabeça com véu! Não chega a ser grande surpresa o fato de as reações dos países predominantemente islâmicos à abertura da nova mesquita terem sido tanto hostis quanto particularmente veementes. Pelo menos não para quem está ciente das realidades repressivas nesses países. Isso também se aplica ao Egito e à Turquia, onde os protestos foram especialmente contundentes. As instâncias religiosas desses dois países têm estado politicamente amordaçadas. Mais interessantes do que as previsíveis reações das nações muçulmanas, contudo, são as reações na própria Alemanha. Estas foram uniformemente positivas; a quase toda a mídia celebrou a nova instituição como uma plataforma para um islã aberto, emancipado. Como se esperava, tanto os meios conservadores quanto os indivíduos e grupos de interesses abertamente críticos ao islã veem nesse tipo de mesquita uma alternativa às dos grupos islâmicos ortodoxos. A seu ver, "este islã" é o único adequado à Alemanha. No entanto esse entusiasmo tão fervente nos setores políticos e midiáticos não consegue acobertar dois problemas fundamentais. Primeiro: o assim chamado "islã liberal" consiste de indivíduos, personalidades públicas, não tem uma estrutura que faça jus ao nome. Na Alemanha existem no momento algumas iniciativas de sociedade civil por muçulmanos liberais, mas seu nível de organização ainda é baixo, assim como sua capacidade de se conectar ao status quo islâmico conservador. Segundo: até o momento, aqueles que representam o islã liberal são ainda muito vagos no tocante ao conteúdo. Eles em geral se definem pela rejeição do islã conservador. E isso é simplesmente não é substância suficiente para ter um grande impacto. Não se questiona: abrir a Mesquita Ibn Rushd-Goethe é um passo corajoso e admirável. Mas, fora da Alemanha, mesquitas como essa não são um fenômeno novo. Há muito tempo já existem projetos semelhantes no Reino Unido e nos Estados Unidos. Além disso, os heterogêneos apoiadores do islã liberal deveriam ter explicado – bem antes da inauguração da mesquita – sobre quais princípios islâmicos se baseia seu entendimento da religião. Eles deveriam, por exemplo, ter mantido um debate pertinente sobre o papel da sharia num Estado secular constitucional. Isso teria certamente sido útil para traçar uma distinção entre os aspectos aceitáveis e inaceitáveis da lei tradicional islâmica. Em outras palavras: assim como a Presidência de Assuntos Religiosos da Turquia, a Diyanet, cita "os preceitos da fé islâmica" como seu ponto de referência, os muçulmanos liberais deveriam também ter justificado os seus esforços referindo-se a fontes islâmicas genuínas. Nem a parca resposta à manifestação em Colônia pela paz muçulmana e o antiterrorismo, nem as reações hostis à abertura da mesquita berlinense podem ser tomadas como prova de que o islã seja incapaz de se reformar. Afinal de contas, estamos vendo por todo o mundo o engajamento de ativistas islâmicos no sentido de uma reforma. A batalha sobre quem tem a prerrogativa para interpretar e definir o "islã" está sendo travada em quase toda parte, com grande fúria. Em qualquer caso, seria aconselhável os políticos não privilegiarem versões específicas do islã, quer liberais, quer conservadoras. Um islã protegido ou mesmo controlado pelo Estado não teria credibilidade, e seria indigno de uma democracia pluralista. Para a evolução continuada do islã na Alemanha, portanto, seria melhor, no espírito de nossa Constituição liberal-democrática, respeitar a pluralidade da vida real dos muçulmanos, com suas diferentes percepções do que seja o islã, e seguir promovendo sua naturalização institucional.

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