"Proibição das drogas impulsiona o tráfico"

Gudrun Heise (ca)

Pesquisador Heino Stöver afirma que proibição não levou a nada e diz que novos modelos de controle de venda e uso de drogas são necessários. "O que estamos fazendo hoje não tem nada que ver com proteção da juventude.""Devemos de uma vez por todas nos afastar da crença na proibição", afirma o cientista social Heino Stöver, da Universidade de Ciências Aplicadas de Frankfurt, em entrevista à DW. O pesquisador, especializado em pesquisa sobre o vício, diz que a proibição não levou a nada e apenas impulsionou os negócios dos traficantes, que podem cobrar preços elevados. "Um traficante não pergunta se uma pessoa já tem 18 anos e se tem certeza de que quer comprar a droga. Ele não dá nenhuma dica de consumo seguro", argumenta. Nesta segunda-feira (26/06), a ONU celebra o Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas. A data é comemorada todos os anos no dia 26 de junho. DW: O álcool é uma droga legal, mas há até bem pouco tempo, na Alemanha, havia adolescentes que consumiam bebidas alcoólicas de forma extrema. Essa situação mudou? Heino Stöver: Claro que ainda há o consumo excessivo de álcool. Não existe aquele adolescente que só quer dar um golinho e ficar um pouco bêbado. Entre os jovens, basicamente o que vale é o efeito do álcool. Sobre os adultos, no entanto, diz-se que o que mais importa é se deliciar com o gosto do vinho, por exemplo. Essa é obviamente uma diferença fundamental. No geral, no entanto, o problema do consumo de álcool "até cair", ou binge drinking, como é chamado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), diminuiu. E quanto às drogas ilegais? A criminalização dos consumidores aumentou. Oitenta por cento das infrações relacionadas com a droga são os chamados delitos de consumo ou delitos ligados ao consumo. Quarenta por cento são praticados por adolescentes e jovens. Ou seja, criminalizamos em grande parte adolescentes e, devido à investigação policial, há obviamente um grande perigo de estigmatização, principalmente de jovens. Eles são tachados de maconheiros ou junkies, não importa que drogas consumam. Esse estigma faz com que, mais tarde, não aceitem qualquer oferta de assistência ou tratamento. Eles são estampados com um carimbo policial. Que drogas estão no topo da lista entre os usuários? Em Frankfurt são consumidos principalmente crack e heroína. Em outras cidades, principalmente heroína. Essas drogas podem ser inaladas ou injetadas. Temos 24 salas de consumo de drogas na Alemanha, mas apenas em seis estados. Os outros dez estados não estabeleceram nem a base legal para tal. Isso demanda uma regulação sobre um espaço de consumo de drogas para possibilitar o desenvolvimento desses modelos. Quais são os exemplos positivos que existem? A cidade de Frankfurt, por exemplo. Quando alguém passa por uma overdose numa sala de consumo de drogas, é imediatamente reanimado. Um primeiro ponto é uma maior quantidade desses espaços. O segundo é: em qualquer domicílio onde houver um toxicodependente deve haver naloxona, um antagonista de opioides. Ela é administrada em caso de emergência e anula imediatamente o efeito da heroína. Ele retira o opioide do receptor. As pessoas ficam imediatamente sóbrias e lúcidas. Tais medidas são viáveis? Sim. O entorno do toxicodependente deve ser instruído e treinado para lidar com essa substância ou é preciso que se garanta que os consumidores possam aplicá-la uns nos outros. Isso é possível tanto de forma intramuscular quanto como spray de nariz, algo que está chegando ao mercado. O que está no topo da lista de tarefas? Com relação a determinadas substâncias, precisamos de uma legislação inteligente. O que estamos fazendo hoje não tem nada que ver com proteção da juventude. Um traficante não pergunta se uma pessoa já tem 18 anos e se tem certeza de que quer comprar a droga. Ele não dá nenhuma dica de consumo seguro, em vez disso, ele só quer vender sua mercadoria suja. Essa droga geralmente é misturada e tem um grau de pureza de 5%. A proibição das drogas impulsiona os negócios, e o traficante pode cobrar preços elevados. A questão é: devemos de uma vez por todas nos afastar da crença na proibição, que na melhor das hipóteses não leva a nada ou é até mesmo contraprodutiva. Precisamos discutir e aplicar modelos inteligentes de controle. É isso que, para mim, está topo da lista de tarefas.

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