Aumenta número de deserções na Coreia do Norte

Julian Ryall (md)

Imprensa sul-coreana destaca novos casos de fugitivos que atravessam fronteira entre os dois países. Recrudescimento do regime, ameaça de fome generalizada e pressão dos EUA estariam entre as causas.Em um ano mediano, talvez um desertor norte-coreano se arrisque a enfrentar as minas terrestres e metralhadoras da zona desmilitarizada que divide as duas Coreias. Os perigos são grandes, e não há estatísticas disponíveis sobre o número de pessoas que morrem na tentativa de fugir. Da mesma forma, desertores recorrem a pequenos barcos em ambas as costas, leste e oeste, da península, e viram a proa rumo às luzes brilhantes da Coreia do Sul. Também nesse caso, não há números sobre quantos são recapturados pelos guardas de fronteira norte-coreanos ou que morrem no mar. Em junho, no entanto, três soldados norte-coreanos da zona desmilitarizada se entregaram aos sul-coreanos, enquanto sete civis foram resgatados de barcos frágeis, depois de fazerem uma perigosa travessia em direção às águas sul-coreanas. A mídia sul-coreana informou que um dos desertores não era um recruta de baixo escalão ou um lavrador esfomeado, mas um integrante da elite do regime. Agravamento das tensões Um pequeno barco de pesca foi interceptado ao largo da costa leste da península em 1° de julho por um navio da guarda costeira sul-coreana. O barco transportava cinco pessoas, incluindo um graduado do prestigiado Instituto Pyongsong de Ciência, da Coreia do Norte, seu filho, a namorada de seu filho e dois membros da família de seu irmão. O filho do homem e sua namorada também foram graduados na mesma universidade e, como são considerados da elite da sociedade norte-coreana, todos eram autorizados a viver em Pyongyang. "Há várias razões pelas quais vemos um aumento de pessoas que tentam desertar em geral, mas é surpreendente ver tantos em tão curto período de tempo tentando vir diretamente para a Coreia do Sul, porque esta é, de longe, a rota mais difícil", afirma Song Young-chae, membro da ONG Coalizão Mundial para Deter o Genocídio na Coreia do Norte. "Ouvimos que as tensões estão se agravando na Coreia do Norte e que cada vez mais pessoais perdem suas liberdades", continua, em entrevista à DW. "Economicamente, o regime parece estar indo muito bem no momento, mas politicamente as pessoas sentem que ele é muito instável", ressalta. Uma grande parte disso se deve à pressão internacional crescente sobre o governo Kim Jong-un em relação ao desenvolvimento de mísseis balísticos e armas nucleares. Na semana passada, Pyongyang saudou o lançamento mais recente do regime – seu primeiro míssil balístico intercontinental – como um triunfo que vai permitir que a Coreia do Norte ataque um alvo "em qualquer lugar do mundo". E apesar de a imprensa estrangeira e contatos com pessoas no exterior serem proibidos na Coreia do Norte, circula entre os cidadãos do país a informação de que o resto do mundo está horrorizado ao imaginar uma Coreia do Norte com capacidade nuclear. Através de telefones celulares e dispositivos de dados contrabandeados, eles também sabem que o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que jamais permitirá que Pyongyang utilize armas que ameacem os EUA. Outro fator pode estar encorajando as pessoas a fugir é a seca no início do verão, que tem afetado severamente lavouras, especialmente nas importantes regiões agrícolas das províncias de Hwanghae Norte e Hwanghae Sul. Trabalhos forçados no campo Alunos de escolas estão sendo obrigados a perder aulas, sendo levados ao campo para irrigar as plantações com as mãos, e novos poços estão sendo escavados, mas há sérias preocupações de que os plantios não vão vingar e de que haverá fome generalizada em todo o país nos próximos meses. Já há sinais de que dificuldades estejam chegando, como o aumento do preço do quilo de arroz, que foi de 5.000 wons (33,53 euros) há duas semanas para 6.000 wons (40.25 euros) em alguns mercados na semana passada. É possível que alguns agricultores estejam retendo suas culturas para os meses de inverno. "É muito difícil concluir a tese de que as deserções recentes são um padrão, porque nós simplesmente não temos informação suficiente no momento", frisa Park Sokeel, diretor de pesquisa e estratégia da ONG Liberdade na Coreia do Norte. "Mas, no geral, as pessoas querem deixar o país principalmente por razões políticas, porque estão se tornando mais conscientes sobre o mundo fora da Coreia do Norte, eles estão vendo cada vez mais o atraso do país e sabem da liberdade e da riqueza disponíveis na Coreia do Sul", avalia Sokeel. "E qualquer um que esteja do outro lado quase que consegue sentir o cheiro da riqueza existente na Coreia do Sul, pode ver as luzes e sabe que não há opressão", destaca. "Isso deve servir como uma atração poderosa para aqueles que decidem correr o risco de fugir para a Coreia do Sul."

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