Pé na praia: O italiano e a Baía de Guanabara

Thomas Fischermann

O fotógrafo Dario, da Itália, vive no Rio e é fascinado pela vida dos pescadores da cidade, cada vez mais empobrecidos. Para se aproximar deles, o estrangeiro morou em seus barcos e comemorou suas festas.Sempre fico preocupado quando meu amigo Dario me chama para irmos à praia. Eu gosto muito de praia, gosto muito do Dario, mas a combinação de ambos raramente dá certo. Dario é fotógrafo, um dos melhores no Rio de Janeiro, e se apaixonou pela Baía da Guanabara. Às vezes ele fotografa a beleza do pôr do sol sobre a silhueta da cidade e os morros cheios de florestas. Mas, com maior frequência, seu olhar se dirige a outros lugares. Ele é fascinado pela vida dos pescadores: os moradores das colônias, cada vez mais empobrecidos, que sobrevivem por toda cidade embaixo de pontes e viadutos, nas favelas, nas praias da Ilha do Governador ou em São Gonçalo. Ali, ele encontra motivos pitorescos e grosseiros, de interesse social. O problema é: a Baía de Guanabara fede muito. Já passou por uma série de mortes de peixes e catástrofes ambientais. Ainda hoje correm para ela, como um caldo grosso, esgotos não tratados do Rio de Janeiro. Lembro-me do estado em que estava quando voltei com o Dario de uma outra excursão pelas praias. Chegamos ao centro do Rio de Janeiro no final da tarde para participar de uma recepção promovida por ambientalistas. Nela estavam muitas pessoas bem vestidas, falando sobre a poluição na baía, segurando taças de vinho. Mas ninguém queria conversar com a gente. Acho que tinha a ver com o nosso cheiro. "Gostaria de te mostrar hoje uma comunidade que você não conhece", disse Dario. Eu o convenci a irmos até lá de táxi. Prefiro isso ao seu método clássico: de motocicleta. "Já completei 20 mil quilômetros rodados na minha moto. É muito mais rápido nos horários de trânsito pesado", disse Dario. Em 2010, ele começou a fotografar a vida nas praias da região, mas rapidamente achou monótono. Foi, então, se interessando cada vez mais pela baía e seus pescadores. Durante a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, isso foi um excelente negócio. Todo mundo queria publicar fotos e artigos sobre o assunto, e Dario era de longe o maior especialista. "No princípio, a gente pensa: é sempre a mesma coisa. A gente fotografa um barco, baldes cheios de peixe, água. Mas chega-se a um ponto no qual é preciso se aprofundar. A gente vai se envolvendo com a vida das pessoas", contou. E foi isso o que ele fez. Morou em barcos, dormiu nas casas das colônias de pescadores, comemorou suas festas. Conheceu os mais diversos tipos, como o velho mineiro, que vive completamente sozinho em uma ilha e ainda pesca. Descobriu barqueiros que conheciam a região e o levaram a lugares que ninguém mais no Rio de Janeiro poderia alcançar: depósitos clandestinos de lixo, encanamentos de água ilegais. "Eiiii! Vamos comer um espaguete?" gritou um homem para nós do outro lado. "Claro, vamos sim", respondeu Dario. Eles o conheciam lá há muito tempo: o italiano. Acho que o achavam meio maluco. Às 7h da manhã, os pescadores estavam reunidos na praça de sua comunidade, uns tipos morenos de sol, consertando suas redes. Rolos de linhas estavam empilhados no chão. Nos arredores da praça, viam-se casebres simples, a construção de muitos deles ainda por terminar. Numa entrada, distribuíam canecas de café adocicado. A colônia de pescadores já tinha despertado para a vida há algumas horas. Estávamos atrasados. Dario disse que não era permitido fotografar em todos os lugares. Poderia ser perigoso. Como fotógrafo da Itália, como gringo, não se percebe isso de imediato – até ser tarde demais. Muitas áreas de favela nas margens da baía e os canais de esgoto são controlados pelo tráfico de drogas, e seus soldados têm armas grandes e muito medo. Algumas invasões de favelas pelas facções inimigas são iniciadas pelo lado da água. Fronteiras invisíveis dividem os territórios uns dos outros, e intrometidos são vistos como perigo. Até mesmo alguns pescadores já desapareceram para sempre. "No começo eu era ingênuo", disse Dario. "Tive sorte. Hoje eu me questiono antes de dar qualquer passo, ou levo guias locais como acompanhantes. O maior problema é entrar com a câmera." Naquele dia, caminhamos por um vão de um canal até o mar. Um típico dia de praia com Dario. Escalamos por um monte de lixo. Um morador nos mostrou um manguezal onde uma empresa derramou produtos químicos. Tinha se tornado um imenso pântano negro. Sentamos com um grupo de homens velhos em um bar de cachaça. Contaram que a colônia de pescadores era um paraíso quando eram jovens. "Os camarões simplesmente passavam ao redor de nossas casas. A gente tinha só que pegá-los", disse um deles. Hoje está tudo diferente, acrescentou outro. Do bar de cachaça, apontou para a rua. "Estão vendo aqueles homens ali? São pescadores", disse. Dario olhou, mas acabou baixando a câmera. Não ia dar uma boa foto. Mesmo assim, estavam tocando no ponto mais doloroso de seu projeto: o problema da ausência de peixes. "Os homens lá fora são pescadores, mas não têm trabalho", disse o velho. "Vivem todos na colônia de pescadores, mas na verdade trabalham no supermercado ou na Petrobras. Pescadores de verdade são muito raros de se encontrar por aqui." Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão die ZEIT na América do Sul. Em sua coluna "Pé na Praia" faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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