Alemanices: Como é morar numa república na Alemanha

Karina Gomes

Dividir apartamento é comum no país, e não apenas entre estudantes. Casais, trabalhadores e pessoas acima dos 40 anos também vivem nas chamadas "WGs". Novos moradores costumam passar por exigente processo seletivo.Para encontrar a cerveja, é só ir ao banheiro. A banheira está cheia de gelo e garrafas. O volume da música é alto. Os quartos e a sala estão cheios de gente, e muitos você não conhece. Os vinhos e schnapps (bebidas destiladas) estão na varanda – o frio lá fora se encarrega de gelar as bebidas. Passa das 22h, e o vizinho começa a reclamar do barulho. A festa continua. Algumas horas depois, a polícia aparece. Seja bem-vindo a uma Wohngemeinschaft alemã, ou simplesmente WG – república, em português. Eu já vivenciei essa situação na Alemanha, mas esse não é o retrato completo de como é viver numa república por aqui. As WGs na Alemanha são muito variadas e não são formadas apenas por estudantes. É frequente que casais que querem reduzir os custos do apartamento aluguem um quarto para alguém de fora, e muitas pessoas acima dos 40 anos e trabalhadores vivem em apartamentos compartilhados. E não se vive só com amigos ou amigos de amigos. A busca por vagas pode ser feita em sites na internet – um dos mais populares é o wg-gesucht.de –, páginas no Facebook ou anúncios em universidades e bibliotecas. Há até castings para escolher os novos moradores. Geralmente, quando o interessado faz uma visita, há uma entrevista com todos os membros da WG. Se a pessoa ainda não se mudou para a Alemanha ou mora numa cidade distante no país, é comum fazer entevistas por Skype. Na descrição das vagas, há requisitos como: "Você deve ter a mente aberta, não desprezar cerveja, ter o que fazer durante a semana e respeitar a privacidade" ou "Esta não é uma 'Party WG' (república de festa). Nós procuramos exclusivamente uma pessoa silenciosa". Muitos também pedem que você descreva sua personalidade ao se candidatar. Há WGs veganas, masculinas, femininas, mistas. Em algumas repúblicas, as pessoas que compartilham o apartamento têm uma relação tão intensa que já adiantam que a república é "Keine Zweck-WG", ou seja, essa não é uma WG individualista, onde se compartilha o espaço por pura necessidade. Eles já avisam que vão querer fazer churrasco, beber vinho e cozinhar com você. E que todos dividem tudo e até vão ao supermercado juntos. Por outro lado, morar numa WG não significa que todos vão virar amigos. Já vivi numa onde nunca sentei para jantar, almoçar ou tomar café da manhã com a colega com quem dividia o apartamento. Ela preferia ter o espaço dela. A convivência se limitou a dar oi e tchau e às vezes reclamar da quantidade de trabalhos na universidade. Já em outra WG, minha colega fazia chás exóticos e me chamava para fazermos yoga e meditação juntas. Sexta-feira era dia de tomarmos uma cerveja na varanda. Na coluna Alemanices, publicada às sextas-feiras, Karina Gomes escreve crônicas sobre os hábitos alemães, com os quais ainda tenta se acostumar. A repórter da DW Brasil e DW África tem prêmios jornalísticos em direitos humanos e sustentabilidade e vive há três anos na Alemanha.

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