O que pode minar o caminho de Merkel rumo à reeleição?

Jefferson Chase (md)

Levantada por Martin Schulz, principal opositor na corrida eleitoral, questão migratória entra de vez na campanha alemã. Tema pode se tornar o calcanhar de Aquiles da atual chanceler na busca por um quarto mandato.Por meses, o candidato social-democrata a chanceler da Alemanha, Martin Schulz, tentou e não conseguiu encontrar um assunto para roubar alguns pontos da popularidade de sua rival, Angela Merkel. Em entrevista publicada neste domingo (23/07) pelo jornal alemão Bild am Sonntag, Schulz tocou, pela primeira vez de forma incisiva, no que talvez seja o calcanhar de Aquiles da atual chefe de governo: sua política em relação aos migrantes de países muçulmanos. "Em 2015, mais de 1 milhão de refugiados vieram para a Alemanha, a maior parte deles, sem um monitoramento do governo", afirmou Schulz. "A chanceler abriu nossa fronteira com a Áustria por razões humanitárias, mas, infelizmente, o fez sem consultar nossos parceiros na Europa. Se não agirmos agora, essa situação pode se repetir." Merkel prometeu aos eleitores alemães que não haverá uma repetição do que aconteceu há dois anos, quando centenas de milhares de pessoas chegaram à Alemanha, muitas fugindo da Síria devastada pela guerra. O fluxo diminuiu no ano passado, mas pode voltar a crescer, à medida que muitos tentam escapar da incerteza política e das dificuldades econômicas de lugares como Nigéria e Eritreia, através de países do norte da África, como a Líbia. Aumento de chegadas Mais de 70 mil migrantes realizaram a travessia extremamente perigosa do Mediterrâneo, chegando à Itália no primeiro semestre deste ano e provocando um aumento de chegadas de mais de 25% em relação a 2016. A Itália pediu ajuda a outros Estados da UE para lidar com os recém-chegados, mas até agora teve seu apelo ignorado. Schulz, que vai à Itália nesta quinta-feira, diz que a Comissão Europeia deveria pagar outros Estados-membros para que eles aceitem migrantes e acusa Merkel de inação estratégica nas vésperas da eleição parlamentar de setembro na Alemanha. "Aqueles que tentam ganhar tempo, ignorando a questão até as eleições nacionais, estão apenas sendo cínicos", acusou o candidato. No auge da crise dos refugiados em 2015 e no início de 2016, Merkel e seu partido amargaram baixas históricas nas pesquisas de opinião, com mais de 80% dizendo acreditar que o governo não tinha controle sobre a situação. Desde então, a chanceler se recuperou e lidera as sondagens, com cerca de 15 pontos percentuais à frente dos social-democratas de Schulz. Embora Schulz tenha tentado ganhar pontos com o assunto, Merkel não tem grandes motivos para temer os ataques da esquerda. A maior ameaça pode vir da direita. Quanto mais o número de imigrantes cresce, maior a pressão para restringir o fluxo de pessoas que chega à Europa vindas do Oriente Médio e do norte da África. Populistas capitalizam O vínculo entre a política de refugiados e a popularidade do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) não pode ser negado. Eles deram um salto considerável nas pesquisas em 2016, conseguindo mais de 20% dos votos em algumas eleições regionais alemãs, à medida que os efeitos das chegadas de refugiados dos anos anteriores se tornavam evidentes. Mas quando a rota migratória dos Bálcãs foi, em grande parte, fechada, o número de refugiados caiu, e a popularidade da AfD também. O partido atualmente atrai entre 7% e 9% das intenções de voto. A queda é atribuída a brigas internas da legenda, mas também ao sentimento comum entre a população de que a "crise" dos refugiados está se arrefecendo. A perda de força da AfD coincide com a recuperação da popularidade dos conservadores de Merkel nas pesquisas de opinião. Mas essa tendência pode muito bem ser revertida, caso o crescente número de migrantes que chegam à Itália resulte em um aumento nas novas chegadas à Alemanha antes das eleições. Um estudo publicado pela Fundação Bertelsmann em novembro passado revelou que o medo da globalização é o principal motor do apoio ao populismo de direita na Europa e que a questão dos refugiados desempenha um papel crucial na formação desse medo. Tudo isso sugere que um aumento do número de migrantes que chegam à Alemanha nos próximos meses poderia beneficiar a AfD nas pesquisas e, possivelmente, afetar as pretensões de Angela Merkel de obter um quarto mandato como chanceler.

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