Opinião: Trump adentra terreno perigoso

Michael Knigge

Expulsão de funcionários de alto escalão vistos como não leais a Donald Trump continua com saída do chefe de gabinete, Reince Priebus. Para jornalista Michael Knigge, novas demissões podem marcar ponto de virada.Uma semana após a renúncia do ex-porta-voz de Donald Trump, Sean Spicer, e da nomeação de Anthony Scaramucci como diretor de comunicações presidencial, o chefe de gabinete em Washington, Reince Priebus, também foi mandado embora. A saída de Priebus coroa uma semana extraordinariamente tumultuosa, até mesmo segundo os padrões da atual administração americana. Outros dois funcionários na mira, o procurador-geral, Jeff Sessions, e o estrategista-chefe, Steve Bannon, sobreviveram à semana, mas não se sabe por quanto tempo. Tanto Sessions – que foi atacado no Twitter por parte de Trump por afastar-se das investigações sobre a ingerência da Rússia nas eleições presidenciais do ano passado – e Bannon – que foi insultado por Scaramucci – são retratados como não suficientemente leais ao presidente pelo próprio Trump e pelo novo protagonista na Casa Branca, Scaramucci. A ascensão meteórica de Scaramucci, que previu a saída de Priebus em sua infame conversa com o repórter nova-iorquino Ryan Lizza, fica ainda mais evidente pelo fato de que ele não precisará, aparentemente, se reportar ao novo chefe de gabinete, John Kelly, como é habitual, mas diretamente ao presidente. Nomear Kelly, o ex-secretário de Segurança Doméstica, como chefe de gabinete, é um grande risco, mas corresponde ao estilo Trump. Falta a Kelly, um ex-comandante militar, experiência política e ele não tem se intimidado em mostrar o seu desdém por jogos políticos. É arriscado incumbir um general de reserva com a tarefa de pôr nos eixos uma Casa Branca disfuncional atolada em disputas internas tóxicas. Mas talvez nem seja isso o que queira Trump, que parece florescer em constante turbulência. Talvez o presidente não deseje realmente um gestor experiente para estruturar e gerir a Casa Branca profissionalmente, já que, por definição, um chefe de gabinete forte detém muito poder, o que pode minar a visão descomunal que Trump tem de si mesmo como inigualável tomador de decisão. O maior risco para o presidente é, no entanto, é deteriorar ainda mais os laços já desgastados com o Partido Republicano. Spicer e Priebus, ambas figuras republicanas, desempenharam um importante papel em alinhar a agenda de Trump com os congressistas republicanos. Que isso não funcionou bem foi evidente, mas pôr a culpa somente neles e nos congressistas republicanos, como Trump tem feito, está errado. Em vez disso, na Casa Branca, como em muitas organizações disfuncionais, os problemas emanam muitas vezes de cima. Mas isso não é algo que o presidente pareça estar disposto a admitir – nem agora nem nunca. A saída de Spicer e Priebus, especialmente de uma forma tão desagradável, pode fazer com que até mesmo os que apoiam em geral os republicanos, no Congresso e em outros lugares, façam uma pausa. Recentemente, alguns republicanos, que até agora permaneceram na maioria das vezes em silêncio sobre o comportamento do presidente, saíram em defesa do procurador-geral Sessions contra os ataques de Trump e fizeram preparativos para que seja impossível para o presidente demitir Sessions e nomear um substituto durante o recesso do Congresso. Demitir Sessions ou o conselheiro jurídico especial Robert Mueller – uma medida que alegadamente já teria sido considerada por Trump e que poria fim às investigações sobre a ingerência russa que têm atormentado o presidente – pode ser um passo longe demais, até mesmo para o atual chefe de Estado. Ao expulsar Spicer e Priebus e instalar o seu "alter ego" Scaramucci, Trump mostrou que o que realmente deseja é uma administração de bajuladores e bajuladoras. Pelos padrões habituais, Spice e Priebus foram leais demais e por demasiado tempo a Trump – em detrimento próprio. Mas a visão distorcida que Trump tem de lealdade significa, basicamente, fidelidade e pode vir somente de sua família ou de gente muito próxima a ele em nível pessoal. Tal definição de lealdade é, em última instância, impossível de conciliar com uma administração governada por leis em vez de laços pessoais. Até agora, os congressistas republicanos não pareceram estar dispostos a admitir esse aspecto da presidência Trump, em parte por acreditar que ele pode ajudá-los a levar à frente a própria agenda deles. A expulsão de Spicer e Priebus e a ascensão de Scaramucci é outro sinal claro de que o presidente não se importa nenhum pouco com legisladores individuais ou com o Partido Republicano em geral. Embora isso não seja suficiente para dissociar-se Trump, uma saída de Sessions ou Mueller poderia ser "a gota d'água" para os republicanos. Se isso acontecer, isso poderia marcar um ponto de virada na administração Trump.

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