Alemanha devolve crânio de indígena ao Japão

Volker Witting (rk)

É o primeiro caso de devolução de restos mortais ao povoado Ainu, da ilha de Hokkaido. Destino "correto" de ossadas em acervos alemães, inclusive de indígenas brasileiros, é motivo de controvérsia.Tadashi Kato mal conseguia conter as lágrimas. "Agora, o morto poderá finalmente iniciar a viagem de volta para casa. É a alma de um sequestrado." O homem de 78 anos é diretor da Associação Ainu de Hokkaido, uma organização que representa o povo indígena da ilha japonesa. Kato viajou a Berlim nesta semana com um objetivo claro: recuperar o crânio e levá-lo para casa. É a primeira vez que se devolve restos mortais de um ainu a partir de um país estrangeiro. Leia também:Crânios brasileiros, controverso legado colonial alemão Leia também:Crânios africanos, herança macabra da colonização alemã Durante a cerimônia de devolução, realizada na segunda-feira (31/07), o professor alemão Alexander Paschos, diretor da Sociedade Berlinense de Antropologia, Etnologia e Pré-História (BGAEU), afirmou que "o crânio foi roubado na calada da noite ". Até hoje, a vítima da conspiração é desconhecida – mas o culpado pelo roubo, não. Trata-se do alemão Georg Schlesinger. Em 1879, ele desenterrou ilegalmente o crânio de um túmulo ainu claramente identificado em Sapporo, na ilha de Hokkaido. Aparentemente, Schlesinger tinha contato estreito com o médico e antropólogo Rudolf Virchow, mundialmente famoso e que havia fundado a Sociedade Berlinense de Antropologia (Berliner Anthropologische Gesellschaft) em 1869 – uma predecessora da BGAEU. O primeiro de muitos gestos? Durante a cerimônia de devolução, realizada na embaixada japonesa na capital alemã, o crânio estava embalado dentro de uma caixa de papelão colocada em cima de uma pequena mesa. A caixa estava envolta num pano branco. Ao lado dela, uma profana pasta de plástico com os dizeres "avaliação antropológica do crânio RV 33, oriundo da coleção de crânios Rudolf Virchow". O diretor da BGAEU, Alexander Paschos, descreveu a devolução à sociedade japonesa como "gesto de boa vontade". Afinal, ele não tinha nenhuma obrigação legal de devolver o objeto. Porém, "limites morais foram ultrapassados" com o roubo do crânio, disse Paschos. O fato de a devolução ter ocorrido se deve ao trabalho de Keisuke Nakanishi, correspondente do diário japonês Mainichi Shimbun na Alemanha. Nakanishi iniciou suas pesquisas há mais de um ano e descobriu que existem diversas ossadas Ainu em acervos de museus alemães. Segundo as revelações do jornalista japonês, mais cinco crânios, restos de ossos e um esqueleto completo fazem parte de coleções alemãs. Mas não se sabe ainda qual é a origem exata dessas ossadas, nem como elas chegaram à Alemanha. Além do país europeu, existem restos mortais de ainus em outros oito países, segundo informações de Tadashi Kato, representante do povo indígena japonês. Ele acredita que a devolução do crânio pela Alemanha, carregada de simbologia, tenha sido apenas o início. Ainda não se fala em reparação ou indenizações. O governo japonês também diz que "ainda não pensou no assunto". Kato espera sobretudo que outros países sigam o modelo da Alemanha e possibilitem a devolução de ossadas de Ainu ao seu local de origem. Discriminação O governo japonês viu o ato emocional em Berlim como propício. Antes dos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, as autoridades querem recuperar a memória sobre as injustiças sofridas pelo povo Ainu no Japão. Os ainus começaram a ser subjugados em 1869, quando a ilha de Hokkaido se tornou uma colônia japonesa. Os indígenas foram obrigados a ir a escolas japonesas e a assumir os costumes da colônia. A cultura tradicional dos ainus foi sistematicamente oprimida. Até hoje, existe um racismo subjacente contra a comunidade dos ainus, que soma algumas dezenas de milhares de pessoas. E muitas delas se sentem discriminadas até hoje – mesmo que, em junho de 2008, o Parlamento japonês tenha decidido reconhecer os ainus como povo indígena. Durante a cerimônia em Berlim, Alexander Paschos pediu que os anfitriões japoneses "confrontem a própria história de forma crítica." Já existem planos nesse sentido no Japão. A cidade de Shira-Oi, na ilha de Hokkaido, deverá se tornar sede de um museu que centralizará o acervo de todos os restos mortais de ainus provenientes de universidades japonesas. O crânio RV 33, de Berlim e que provavelmente era de um homem, também será armazenado ali. Há pesquisas em andamento no Japão para descobrir se o desconhecido tem descendentes. "Não se pode reverter a História", diz o ainu Tadashi Kato. Mas, segundo ele, a devolução do RV 33 representa um começo para reconstruí-la. Ossos do Brasil e de outros países O Brasil protagoniza casos parecidos com o do crânio ainu em Berlim. O mais emblemático envolvendo povos indígenas do país é o do botocudo Joachim Kuêk, que acompanhou o príncipe alemão Wied-Neuwied no vale do rio Doce no século 19 durante expedições de pesquisas etnológicas, zoológicas e botânicas. Kuêk foi levado pelo príncipe à Alemanha e exposto numa sala no palácio de Wied-Neuwied. Em 1833, ele teria caído de uma janela e não resistido ao frio. Seu crânio foi doado ao instituto de anatomia da Universidade de Bonn e, em 2011, devolvido à cidade de Jequitinhonha, para em seguida ser transferido a uma tribo krenak, descendente do indígena. Se o representante Ainu Tadashi Kato tem esperança de que os demais restos mortais do povo indígena japonês sejam devolvidos ao local de origem, o tratamento mais correto para lidar com o legado material das polêmicas viagens de estudos evolucionistas realizadas por pesquisadores europeus é objeto de debate entre os povos afetados, especialistas e autoridades. Em matéria divulgada no final de 2016, o canal de televisão alemão MDR afirmou ter obtido uma lista de restos mortais humanos no acervo da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano (SPK). A lista mostra que a SPK guarda mais de mil crânios originários de Ruanda e cerca de 60 da Tanzânia, países que pertenceram à colônia África Oriental Alemã entre 1885 e 1918. Acredita-se que alguns dos restos sejam de insurgentes mortos por tropas alemãs durante as guerras coloniais e que seus crânios tenham sido enviados a Berlim para "experiências científicas". Enquanto autoridades alemãs e internacionais pressionam por uma "devolução digna" dos restos mortais aos países de origem, as etnias vítimas das "caçadas evolucionistas" desejam, entre outros, uma discussão ampla sobre a discriminação desses povos até os dias atuais.

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