Zeitgeist: Na Líbia, o caos governa

Alexandre Schossler

Desde a queda de Kadafi, país vive intensa luta pelo poder. Hoje, há dois centros políticos rivais, em Trípoli e Tobruk, e nenhum detém o controle efetivo sobre o território líbio e os grupos armados que o apoiam.A Líbia sempre foi um país extremamente dividido, mas, desde a morte do ditador Muammar Kadafi, em 2011, o caos tomou conta de seu território, com milhares de milícias lutando pelo poder. Hoje há, basicamente, dois centros de poder na Líbia, ainda que nenhum deles detenha um controle efetivo nem mesmo sobre os grupos armados que os apoiam. Eles ficam em Trípoli, no oeste, e em Tobruk, no leste. Em Trípoli está o Governo do Acordo Nacional (GNA), que surgiu de negociações lideradas pelas Nações Unidas em 2015 para tentar criar um governo de unidade, em substituição aos dois governos paralelos então existentes. O GNA é liderado pelo primeiro-ministro Fayez al-Sarraj, de 57 anos. Essas negociações levaram a um acordo de cessar-fogo em 17 de dezembro de 2015, e o GNA foi instalado em março de 2016. Só que a unidade nunca foi de fato alcançada, e o GNA, que não tem um Exército próprio, tem lutado para impor sua autoridade sobre o país. Em Tobruk está sediada a Câmara dos Representantes, que é o legislativo líbio internacionalmente reconhecido. Ele se mudou para a cidade depois das eleições parlamentares de 2014 e do temor de que a capital, Trípoli, não oferecesse condições de segurança por ser dominada por grupos islamistas, derrotados naquela eleição. Apesar de inicialmente apoiar o GNA, a Câmara dos Representantes se afastou do governo de unidade em meados de 2016, tornando-se na prática o seu "governo concorrente". Nos primeiros meses de 2017, a colaboração entre os dois lados cessou completamente. Eleição parlamentar de 2014 A atual disputa de poder entre Trípoli e Tobruk começou depois da eleição parlamentar de 25 de junho de 2014. Ela elegeu os membros Câmara dos Representantes, em substituição ao então existente Congresso Geral Nacional. O Congresso Geral Nacional havia sido eleito em 2012, de forma temporária, e era então o legislativo líbio. Ele era dominado por islamistas, que perderam a eleição de 2014 e não a reconheceram por causa do baixo comparecimento, de apenas 18%. Como resultado, os grupos derrotados se uniram no Novo Congresso Geral Nacional e não reconheceram a legitimidade da Câmara dos Representantes, de maioria liberal e moderada. O Novo Congresso Nacional Geral manteve sua sede em Trípoli e foi o rival da Câmara dos Representantes até a sua dissolução, em abril de 2016. Foram esses dois grupos que negociaram a formação do Governo de Acordo Nacional. Pelo acordo alcançado, a Câmara dos Representantes é reconhecida como o legislativo líbio, e os membros do Novo Congresso Nacional Geral poderiam indicar os integrantes do Alto Conselho de Estado, um órgão de assessoramento tanto do GNA como da Câmara dos Representantes. Khalifa Haftar A maioria dos membros da Câmara dos Representantes, que é dominada por forças liberais e moderadas, defende um papel importante no governo líbio para o general Khalifa Haftar, que lidera a luta contra as milícias islâmicas e apoia o governo em Tobruk. Haftar, de 73 anos, é o líder das autoproclamadas Forças Armadas da Líbia, que combatem grupos jihadistas e também islamistas desde o levante de 2011. Ele se apresenta como o salvador do país diante da ameaça jihadista, mas é uma figura altamente controversa, tendo sido acusado de colaborar com a CIA durante o seu exílio nos EUA. Haftar se recusa a apoiar o Governo do Acordo Nacional, liderado por Sarraj, mas recentes encontros entre os dois, em Abu Dabhi e Paris, indicaram que um acordo entre eles pode ser alcançado. A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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