Opinião: Bebês projetados não devem ser objetivo

Fabian Schmidt

Correção de DNA de embrião para evitar doença hereditária é revolução na ciência. Mas foco de pesquisadores deve ser ganho de conhecimentos científicos, e não "editar" bebês a pedido dos pais, opina Fabian Schmidt.Experimentos que ajudam a entender melhor como funcionam nossos genes e quais mecanismos participam do processo representam uma revolução para a pesquisa fundamental. Desta vez, constatou-se, com om técnica Crispr-Cas 9, que células embrionárias dispõem de mecanismos próprios de reparo não encontrados em outras células-tronco. Isso possibilitou o estabelecimento de uma importante base para pesquisas futuras, que pode ser interessante para diferentes áreas da medicina. Como para a pesquisa sobre câncer, pois esse avanço pode ajudar a entender como e por que há mutação nas células-tronco ou que mecanismos de autorreparo existem e por que esses falham de repente quando aparece um tumor. Mas tais conhecimentos também podem ser animadores para o crescente campo da pesquisa da demência. Por isso, é importante que equipes de pesquisadores responsáveis continuem fazendo tais experimentos – sob a rígida aplicação de limites baseados estritamente na ética. No entanto, o objetivo deve visar ao ganho de conhecimentos científicos. E não deve haver nenhuma pesquisa em embriões completamente desenvolvidos. Acima de tudo, é necessário estabelecer um limite bem claro: o objetivo das pesquisas nunca deverá ser a produção de bebês de proveta geneticamente modificados na prática clínica ou editados para evitar doenças hereditárias. Razões médicas e éticas têm aqui o mesmo peso: é impossível dizer com certeza se essas crianças "editadas" geneticamente também irão resultar em adultos saudáveis. O genoma é simplesmente complexo demais. Por meio do diagnóstico genético pré-implantacional, nenhum médico pode prever toda uma vida humana, se a tesoura molecular vai funcionar tão bem quanto esperado. Com a idade, talvez surjam doenças sobre as quais ainda não temos nem ideia. Eticamente, devemos ter cuidado para não brincar de Deus, intervindo na linha germinal humana. Pois, para aceitarmos que é certo evitar doenças hereditárias dessa forma, precisaríamos definir detalhadamente o que é considerado uma enfermidade: permitiríamos o procedimento somente nos casos em que o bebê fosse portador de uma doença falciforme mortal ou fosse vir ao mundo com distrofia muscular? Ou poderia se tratar de desejos bastante generalizados em relação a fatores hereditários, como predisposição ao câncer, determinado tipo corporal, estatura ou mesmo a cor do cabelo? Não, não devemos de forma alguma dar início a isso: pois não é nada necessário corrigir primeiramente material genético doente por meio da tesoura molecular, para então realizar o desejo de ter filhos. Material genético sadio e biológico existe de sobra neste mundo: mais de sete bilhões de pessoas o levam consigo. Se um casal desejar ter uma criança, ele pode verificar previamente através de um exame de sangue se existe o perigo de doença hereditária. Se for o caso, há a possibilidade de se encontrar uma saudável doadora de óvulo ou doador de esperma. É certo que, biologicamente, a criança não é mais "própria", mas o Homo sapiens se diferencia de outras espécies por ser dotado de razão. Talvez ele possa superar sua vaidade inerente e ousar um salto evolutivo: ele não precisa ser guiado necessariamente pelo princípio darwiniano de que o sentido da vida está na transmissão do "próprio" material genético. De qualquer forma, o amor paternal ou maternal não deve depender disso. E antes que se comece a especular sobre experimentos de tesoura molecular na prática clínica: no mundo, existe um grande número de crianças carentes que procuram urgentemente por pais adotivos.

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