Bibliothek: Mulheres e o início da literatura na Alemanha

Ricardo Domeneck

A Alemanha nasceu como "Vaterland", a terra paterna que, como em outras línguas, havia de ter uma "Muttersprache". A terra é dos pais, a língua é das mães. E quem foram essas mães da língua?Se nós brasileiros chamamos nosso país de "mãe gentil", por mais irreal que isso seja, para os germânicos que unificaram os vários principados que hoje formam a Alemanha sob certo controle da Prússia, o país que nascia era a Vaterland, a terra paterna. O interessante é que, como em outras línguas, esta Vaterland havia de ter uma Muttersprache. Uma terra paterna com uma língua materna. A terra é dos pais, a língua é das mães. E quem foram essas mães da língua, quem foram as figuras femininas que deixaram marcas na literatura do país? Quando o país foi unificado, já era permitida a educação para meninas das classes mais privilegiadas, ainda que isso se desse apenas até a menarca, ou seja, sua primeira menstruação, quando então passavam a ter tutores em casa. O direito ao voto para mulheres viria apenas com a República de Weimar, em 1918. A contribuição de mulheres à literatura de língua alemã começa no período medieval. Para um país hoje tão amplamente laico, é importante notar que grande parte do misticismo cristão medieval saiu de penas germânicas. A mulher mais importante neste campo foi sem dúvida Hildegard von Bingen (1098 - 1179), uma mulher de incríveis e variados talentos, autora de poemas, textos místicos, tratados de botânica e medicina, além de criar uma língua, conhecida como Lingua Ignota, que usou em muitos de seus textos. Séculos mais tarde, durante a Reforma Protestante, Argula von Grumbach (1492 - 1554) faria também contribuições aos debates religiosos que tomavam de assalto a região. Para quem vai a uma livraria na Alemanha hoje, os mais antigos trabalhos escritos por uma mulher que ainda se pode encontrar facilmente nas estantes talvez sejam os poemas de Annette von Droste-Hülshoff (1797 - 1848). É ainda considerada a primeira grande poeta de língua alemã. Certa vez, em viagem pelo Lago de Constança, os amigos com quem estavam apontaram para um castelo e disseram que ali vivera e morrera Annette von Droste-Hülshoff. Era o belo Castelo Meersburg, construído no século 7, considerado o mais antigo castelo da Alemanha ainda habitado. O próximo grande nome feminino na literatura alemã seria o da poeta e prosadora Else Lasker-Schüler (1869 - 1945). Não se pode discutir o Expressionismo alemão sem citar seu nome. De origem judaica, havia conquistado o respeito do país e seria a última a receber o Prêmio Kleist em 1932, um ano antes da tomada do poder pelo Partido Nazista. Já em 1933, percebendo o perigo e a catástrofe que se aproximava, Else Lasker-Schüler emigra para a Suíça e, entre 1934 e 1937, empreendeu viagens à Palestina. Teve seu passaporte alemão cancelado pelos nazistas em 1938. No ano seguinte, viaja à Palestina mais um vez e a eclosão da Guerra impede seu retorno. A poeta e prosadora morreria em Jerusalém em 1945. Uma entrevista interessantíssima para compreender a situação das mulheres na Alemanha daquele período é a que Hannah Arendt concede ao jornalista Günter Gaus em 1964. A própria Hannah Arendt é um dos nomes alemães mais importantes do século 20. Recomendo muito que se assista à entrevista, que pode ser encontrada online com legendas. O entrevistador começa dizendo que Arendt era a primeira mulher a ser retratada naquele programa, numa profissão que era considerada "masculina", a de filósofa. A resposta de Arendt é ótima, dizendo que apenas porque uma profissão foi exercida na maioria dos casos por homens não quer dizer que a situação tenha que permanecer assim. Com elegância, ela rebate várias das perguntas de Gaus. A situação mudaria no pós-guerra, mas retorno ao assunto, tratando deste período, na próxima semana. Termino com um obrigado a mulheres como Hildegard von Bingen, Annette von Droste-Hülshoff, Else Lasker-Schüler e Hannah Arendt. Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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