Opinião: Israel deveria ver a Al Jazeera como aliada

Kersten Knipp (lfr)

Agredir a liberdade de imprensa não combina com um Estado que, com razão, apresenta-se como a única democracia do Oriente Médio, afirma o jornalista Kersten Knipp.Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito – e agora, pelo jeito, também Israel. É uma curiosa aliança essa que se formou contra a Al Jazeera. Há alguns dias, os três países do Golfo Pérsico e o Egito proibiram a emissora do Catar em seu território. Agora, Israel parece seguir o exemplo. Em julho, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou a empresa de uma cobertura problemática sobre os distúrbios no Monte do Templo. "A emissora incita à violência", afirmou Netanyahu no Facebook. No domingo (06/08), o ministro das Comunicações, Ayoub Kara, anunciou que pretende retirar as credenciais dos jornalistas da emissora e impedir as transmissões por cabo e satélite. "Liberdade de expressão não é liberdade à incitação", afirmou. "Democracia tem seus limites." Com essa frase, Kara tocou num ponto nevrálgico: onde estão os limites da democracia? E quem os define? O jornal israelense Haaretz, liberal de esquerda e que cultiva uma relação no mínimo distante do governo de Netanyahu, afirmou que Kara não conseguiu dar sequer um exemplo para provar as acusações contra a emissora. A verdade é que a Al Jazeera não é exatamente mansa com Israel. No site da emissora em árabe há um artigo de opinião que define Israel como um "Estado de apartheid" e um "Estado de ocupação protegido pelo Ocidente". Além disso, o governo pretende "judaizar" Jerusalém, diz o texto. São palavras duras, que podem ser encontradas de maneira igual ou semelhante em quase toda a mídia em língua árabe. Alguns veículos se manifestam de maneira ainda mais dura. Assim é difícil de entender por que Israel quer impedir o trabalho justamente da Al Jazeera em seu território, pois isso não impedirá as imagens e os comentários desagradáveis no mundo árabe. Pelo contrário: a proibição da emissora pode até aumentar os ressentimentos. A situação é ainda mais incompreensível porque Israel se alinha, ao menos simbolicamente, a Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Egito, ou seja, a Estados que até o momento não se destacaram por uma sensibilidade apurada para questões de direitos humanos, para usar uma formulação bem cautelosa. E agora Israel – que, justificadamente, afirma ser a única democracia no Oriente Médio – faz exatamente o mesmo que esses países. Além disso, com sua decisão, o Estado judeu não faz nenhum favor à liberdade de imprensa na região. Pois o fato de a Al Jazeera ser indesejada também nos três países do Golfo e no Egito equivale a um título de nobreza no jornalismo, mostra que a emissora e seus funcionários não têm medo de confrontar alguns dos países mais ricos da região do Golfo Pérsico. O jornalista da Al Jazeera Peter Greste e sua equipe foram mantidos durante 400 dias numa prisão egípcia, o que mostra que, por seu trabalho, os funcionários da emissora assumem graves consequências pessoais. É difícil acreditar que Israel queira mesmo se aproximar de regimes como a Arábia Saudita e o Egito e dificultar drasticamente o trabalho da imprensa. Isso vale também – na verdade, mais do que nunca – quando esse trabalho às vezes dói. Isso vale sobretudo para Israel, que tem uma reputação consideravelmente ruim no mundo árabe. Contribui para essa reputação a política de assentamento, que é condenada pela comunidade internacional. Mas também contribui para isso o hábito, que em boa parte da região se transformou em prática, de responsabilizar Israel por todos os problemas imagináveis – especialmente por aqueles pelos quais os autocratas locais deveriam responder. A crítica política se transformou em presunção preguiçosa. A Al Jazeera costuma dar nome aos bois quando fala sobre os problemas no mundo árabe. Assim, a emissora na verdade deveria ser uma parceira natural de Israel – mesmo que, por vezes, incômoda.

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