Putin vai ao encontro da juventude

Emily Sherwin (md)

Presidente russo ministra aula inaugural em escola secundarista. Para especialista, visita faz parte da campanha para a eleição de 2018 e é tentativa de se aproximar dos jovens.O 1° de setembro é marcado por celebrações na Rússia. Tradicionalmente, é o primeiro dia do ano letivo. As crianças vão à escola com suas melhores roupas, carregando buquês de flores para seus professores. As garotas mais novas amarram fitas brancas em seus cabelos, enfeitados por tranças complicadas. A data é oficialmente conhecida como o Dia do Conhecimento, e os alunos muitas vezes têm lições gerais sobre valores – como a importância da paz mundial – em vez de disciplinas. Este ano, o próprio presidente da Rússia, Vladimir Putin, ministrou uma dessas aulas inaugurais, na cidade de Yaroslavl. A palestra aos estudantes foi exibida em outras escolas do país, assim como nas mídias sociais. Putin falou sobre o futuro da Rússia e disse que quem dominar a inteligência artificial vai também dominar o mundo. Segundo ele, a inteligência artificial cria "oportunidades e ameaças enormes, que são difíceis de antecipar". Putin tem visitado anualmente uma escola no 1º de setembro. Mas a visita deste ano ocorreu pouco antes das eleições regionais de setembro, bem como do lançamento oficial da campanha para a eleição presidencial, marcada para março de 2018. "É claro que isso faz parte da campanha, não há qualquer dúvida", afirmou o analista Alexander Baunov, do think tank Carnegie Institute de Moscou. Ele ressaltou que a tática de Putin para eventos públicos e seu programa anual de televisão mudaram ao longo dos anos. Ele costumava usá-los para "mostrar eficácia, que ele entende os problemas das pessoas e pode resolvê-los". Baunov considerou a aula deste ano como parte de uma nova tendência. Putin começou a usar essas reuniões públicas para permitir às "pessoas compreenderem o presidente e suas opiniões sobre o mundo", disse. "Normalmente, personalidades, como cosmonautas, veteranos de guerra ou atores conhecidos, ministram uma aula como essa", explicou o analista. Impulso para a nova geração Mesmo assim, parece que Putin está particularmente interessado em se conectar com a geração mais nova antes das próximas eleições. Não é a primeira vez, em meses recentes, que ele faz um esforço para abordar os jovens. Em julho, Putin visitou Sirius, uma escola para crianças superdotadas em Sochi, para uma sessão de perguntas e respostas. A reunião foi transmitida ao vivo pela televisão estatal. As perguntas eram em grande parte apolíticas, tocando em tópicos como a vida pessoal e passatempos de Putin, suas memórias de infância. Putin afirmou que seus dias úteis geralmente terminam tão tarde que ele "não tem tempo para o Instagram" e disse aos espectadores que seus três principais valores são "a vida em si, o amor e a liberdade". Aquela sessão de perguntas e respostas chamou a atenção porque ocorreu apenas um mês depois de milhares de pessoas terem saído às ruas em toda a Rússia, em 26 de março de 2017, para protestar contra a corrupção. Muitos dos manifestantes eram jovens, e muitos seguiam a convocação do oposicionista Alexei Navalny, que acusara o primeiro-ministro Dmitri Medvedev de corrupção, num vídeo postado no YouTube. Navalny planeja se candidatar a presidente em 2018, embora ainda não esteja claro se ele obterá autorização para isso devido a uma ação criminal. Não houve menção direta sobre as acusações de corrupção de Navalny na reunião de Putin com os alunos de Sirius, embora o presidente tenha sido questionado sobre sua avaliação a respeito de "certas personalidades da oposição". Jovens que não protestam Ainda assim, a visita de Putin à escola em Sochi "pareceu ser uma resposta aos protestos juvenis em Moscou e nas províncias", avaliou Baunov. Mas ele disse que o evento em julho também fez com que Putin parecesse um pouco fora de sintonia. "Ele quis se apresentar como um mentor maduro e adulto, mas simplesmente parecia que ele não estava falando com eles sobre o que eles queriam ouvir." Baunov afirmou que se comunicar com os jovens talvez não seja o único objetivo de Putin, já que o evento em Yaroslavl foi uma aula e não um diálogo. O governo talvez esteja tentando mudar a imagem da geração mais jovem. "O desejo de ministrar uma aula magna pode ser visto como uma resposta à questão se o Kremlin perdeu o controle sobre os jovens", disse Baunov. "Putin quer mostrar que há também um outro tipo de jovem – decente e criativo, que não encontra sua realização pessoal em protestos."

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