Refugiados e Turquia dominam debate entre Schulz e Merkel

Jean-Philip Struck

Houve pouco espaço para temas como aposentadorias e educação em duelo entre chanceler e concorrente social-democrata.A chanceler federal, Angela Merkel, e seu concorrente social-democrata Martin Schulz realizaram na noite deste domingo (03/09) o primeiro – e único – debate da campanha eleitoral. Dois terços do duelo foram dominados por questões que vem gerando controvérsia no país nos últimos anos, como imigração, refugiados, islã e as negociações para a entrada da Turquia na Europeia. Os olhos de boa parte do eleitorado estavam voltados para Schulz, que nas últimas semanas adotou uma posição mais acusatória e esperava usar o debate para contornar sua desvantagem nas pesquisas, que mostram seu partido, o SPD, até 17 pontos percentuais da União Democrata-Cristã (CDU) de Merkel. O debate ocorreu a três semanas da eleição, prevista para o dia 24 de setembro. Ao longo do debate, o candidato social-democrata tentou se diferenciar de Merkel. A chanceler chegou a ficar na defensiva quando Schulz fez críticas em temas como refugiados e política social, mas em vários momentos ambos pareceram concordar ou apenas discordar em detalhes. No caso da política adotada por Merkel na crise dos refugiados, ele disse que a chanceler deveria ter coordenado melhor a situação com vizinhos da Alemanha. "Merkel disse que faria tudo que fez em 2015 de novo, mas acho que isso não seria aconselhável. Vários erros foram cometidos. Precisamos encontrar soluções, mas não à custa da Alemanha", disse ele. Merkel, por sua vez, disse que a posição de outros países europeus, especialmente a Hungria, dificultou qualquer coordenação. Quando se tratou de deportações, ambos mostraram visões semelhantes. "Pessoas que não têm o direito de estar em nosso país devem deixá-lo – várias já foram deportadas", disse Merkel. Schulz, por sua vez, disse "pessoas que cometeram crimes não devem ficar". Eles também falaram em melhorar a situação dos países de origem dos imigrantes e atacar as causas da fuga de tantas pessoas. "A Alemanha se beneficiou da globalização e nós não podemos nos desligar dos conflitos do mundo. Mas não significa que todos podem vir até aqui. Precisamos combater as razões que levam as pessoas a deixarem seus locais", disse Merkel. "Pessoas que estão fugindo de matanças e estupros vêm aqui porque sabe que somos democratas. Mas em relação à imigração estamos enfrentando desafios", disse Schulz. Islã Os dois candidatos também mostraram visões semelhantes sobre a integração de imigrantes muçulmanos e relação da religião com a Alemanha. "Temos quatro milhões de pessoas que contribuem para o sucesso da Alemanha, e a fé deles é o islã. Dessa forma, o islã faz parte da Alemanha, mas desde que siga a Constituição", disse Angela Merkel. Ela também afirmou ser favorável em combater clérigos que espalham discurso de ódio. "Temos que fechar mesquitas se ocorrerem coisas nelas que não podemos aceitar", afirmou Merkel, que disse ainda que a Alemanha deve formar seus próprios clérigos muçulmanos, sem depender de imãs que vêm de países como a Turquia e Arábia Saudita. Já Schulz afirmou não acreditar que imigrantes muçulmanos sejam mais difíceis de se integrar na sociedade alemã do que membros de outras comunidades. O social-democrata também afirmou que o governo devia fazer mais para impedir "imãs que espalham o ódio". Turquia Um dos pontos mais acalorados do debate envolveu as relações da Turquia com a Alemanha, que andam estremecidas após a prisão de cidadãos alemães pelo governo de Recep Erdogan e as tentativas de Ancara de interferir em questões internas da Alemanha. Schulz afirmou que, se eleito chanceler, vai cancelar qualquer negociação para a entrada da Turquia na União Europeia. "Esse país não pode se tornar membro da UE", disse. Merkel aproveitou o momento para acusar Schulz de ter mudado de opinião sobre o assunto desde que deixou o cargo de presidente do Parlamento Europeu. Em dado momento, Merkel acusou Schulz de ter mudado radicalmente de posição e ao mesmo tempo disse acreditar que a Turquia nunca vai fazer parte do bloco. "Eu não vejo a Turquia enfrentado na União Europeia, eu nunca vi, mas isso parece ter sido diferente para a SPD", disse. Trump Schulz também afirmou que o presidente dos EUA, Donald Trump, é "imprevisível". Quando questionado se Trump era a pessoa certa para lidar com o problema norte-coreano, Schulz respondeu "não". "É uma pessoa que usa o Twitter para atacar seu oponentes e não consegue se diferenciar de neonazistas. Em um caso assim, o chanceler federal tem que marcar presença", disse. Já Merkel evitou criticar o americano afirmou que vai continuar a insistir em trabalhar com Trump. "Nós precisamos dos EUA como uma força de paz e vamos fazer de tudo para coloca-los no caminho certo." Outros temas Pouco tempo foi devotado para temas como aposentadoria, e alguns assuntos como educação, energia, gastos militares e o Brexit, ficaram completamente de fora. Uma parte do debate também foi devotada para temas como pedágios em estradas e o escândalo envolvendo fraudes na emissão de carros a diesel. Schulz tentou marcar alguns pontos na discussão sobre relações de trabalho e política social, mas pouco tempo foi devotado ao tema, que era considerado pelo seu partido como um diferencial da sua campanha. "A Alemanha é um país próspero, mas isso não significa que todos na Alemanha são prósperos, disse. "Alguns casais na Alemanha não podem pagar o aluguel com a renda combinada, e esses aluguéis estão subindo", disse, afirmando que Merkel não representa os alemães que não vêm se beneficiando do crescimento. Merkel, por sua vez, se defendeu da acusação afirmando que o desemprego caiu no período em que ela esteve á frente da chancelaria e que isso beneficiou os mais pobres. Eles também trocaram acusações sobre segurança pública. Merkel afirmou que o partido de Schulz perdeu recentemente o governo do Estado da Renânia do Norte-Vestfália porque os sociais-democratas abandonaram a polícia. Schulz retrucou afirmou que o Estado mais violento da Alemanha, a Saxônia-Anhalt, é governada pela CDU de Merkel. A quantidade de temas controversos da primeira hora do debate chamaram a atenção de observadores. O colunista da revista Der Spiegel Jakob Augstein afirmou que a presença deles "demonstram que tipo de papel a AfD está desempenhando na política alemã", se referindo ao novato partido populista de direita que costuma explorar temores entre o eleitorado sobre imigração e o islã.

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