Bibliothek: Um caso de amor entre escritores de língua alemã

Ricardo Domeneck

Romances no universo da literatura são recorrentes e costumam deliciar o público. Um dos mais emblemáticos na Alemanha foi o de Paul Celan e Ingeborg Bachmann, cujas correspondências geraram um mito literário.Acredito que em todos os países escritores tenham às vezes o infortúnio de se apaixonarem uns pelos outros e começarem relacionamentos. A culpa talvez seja da profissão comum e da proximidade que ela traz – esta profissão que gera a ilusão de se compreender melhor outros humanos. É verdade que alguns relacionamentos são felizes e frutíferos, mas em geral os que entram para a história são os desastrosos, os que deixam para trás avalanches de cartas, poemas e romances. Belo material para biógrafos e cineastas. Um dos casos mais conhecidos será certamente entre os escritores de língua inglesa de Sylvia Plath e Ted Hughes. O público se deliciou com o talento deles posto a serviço de xingamentos e maldições. Agradecemos por eles nos fornecerem aspirinas para as nossas próprias dores de cabeça amorosas. Na língua alemã, há o caso feliz dos austríacos Ernst Jandl e Friederike Mayröcker, que viveram juntos até a morte de Jandl, no ano 2000. O que há de cortar o coração são os poemas que Mayröcker escreveu sobre seu amor de décadas quando foi deixada sozinha na Terra. Os dois formaram por muito tempo uma das duplas mais dinâmicas da literatura germânica. Há também o caso triste de Heiner Müller e Inge Müller. Mas o amor literário e real que vem tomando as mentes nos últimos anos por aqui foi o do romeno Paul Celan e da austríaca Ingeborg Bachmann. A publicação de sua correspondência no início do século criou um novo mito literário, ainda que a dor tenha sido claramente real, em especial para Bachmann. Compreende-se a obsessão pela história. Sobrevivente do Holocausto, Celan é possivelmente o poeta de língua alemã mais conhecido do pós-guerra no âmbito internacional. A fama mundial de Bachmann ultrapassa também a de outras mulheres do pós-guerra que se dedicaram à literatura, como Christa Wolf ou Marie Luise Kaschnitz. Por fim, os dois tiveram fins extremamente trágicos. Celan cometeu suicídio jogando-se no rio Sena, em Paris, em 1970. Bachmann morreu em Roma em 1973, após queimar-se terrivelmente num incêndio causado por um cigarro na cama, unido a sua dependência por tranquilizantes. Duas mortes no exílio, separadas por apenas três anos. O amor deixou marcas na literatura de ambos, com poemas nascidos do romance sendo hoje identificados entre os dois remetentes e destinatários. Especula-se ainda que a figura central do romance Malina (1971), de Bachmann, seja inspirada em Celan. A correspondência, que foi do ano 1948, quando se conheceram, até 1967, foi reunida no volume Herzzeit (tempo do coração, literalmente) e já rendeu inúmeros artigos. No ano passado, a correspondência chegou às telas dos cinemas com o filme Die Geträumten, de Ruth Beckermann, no qual Anja Plaschg interpreta Ingerborg Bachmann, e Laurence Rupp, Paul Celan. O conceito do filme é bastante simples e bonito. Os atores leem as cartas, e o longa traz ainda o processo de composição. É interessante ver Plaschg nesse papel. Quem não a conhece, deveria procurar sua música sob o nome artístico Soap & Skin. É possível que escritores e outros artistas continuem se iludindo de que se compreenderiam melhor que outros e comecem seus casos de amor pelos séculos que vêm. E os que nascerem depois usarão sua dor vertida em cartas, poemas e romances para se consolarem de suas próprias catástrofes do coração. É sempre Herzzeit.

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