Avião abandonado no Brasil é alvo de disputa na Alemanha

Carlos Albuquerque

  • TMA Fortaleza/P Wagner/Deutsche Welle

    Avião conhecido como Landshut está sendo desmontado em Fortaleza

    Avião conhecido como Landshut está sendo desmontado em Fortaleza

Cidades alemãs competem para abrigar em museu Boeing estacionado em Fortaleza há quase uma década. Aeronave pertencia à Lufthansa e foi sequestrado por terroristas há 40 anos, tornando-se símbolo do Outono Alemão.

Estacionado em Fortaleza, um Boeing que pertencia à Lufthansa e foi sequestrado por terroristas há 40 anos é agora motivo de disputa entre cidades alemãs que concorrem para abrigá-lo em museu.

O Landshut – como é chamado o famoso avião na Alemanha – estava abandonado há nove anos num cemitério de aviões no Aeroporto Pinto Martins e foi comprado da Infraero pelo governo alemão.

Uma equipe da Lufthansa, antiga proprietária da aeronave, foi enviada a Fortaleza para desmontar a aeronave e transportá-la para a Alemanha, onde deve ser exposta num museu particular, em Friedrichshafen, no sul do país.

O 40° aniversário do chamado Outono Alemão – período que marcou o auge da luta entre o Estado alemão e o terrorismo de extrema-esquerda e do qual o Landshut se tornou símbolo – fez com o governo alemão se interessasse pelo retorno da aeronave à Alemanha.

Alemanha vai repatriar do Brasil famoso avião sequestrado

Há poucas semanas, o ministro do Exterior, Sigmar Gabriel, foi a Friedrichshafen anunciar que o Landshut deveria ser exposto no Museu Aeroespacial Dornier da cidade, às margens do Lago Constança.

"Agradeço à Fundação Dornier por nos ter feito uma oferta tão maravilhosa", afirmou o ministro na ocasião. O problema é que agora surgiu outra cidade alemã interessada no famoso avião.

Em sua edição desta semana, a revista alemã Spiegel relatou que Simone Lange, prefeita de Flensburg, no norte do país, acusa agora o Ministério do Exterior em Berlim de ter quebrado a promessa de uma licitação aberta para escolher o melhor local para abrigar o Landshut.

Fontes do aeroporto de Fortaleza disseram que o avião ainda está sendo desmantelado. Até esta quinta-feira (07), a cauda e parte das asas teriam sido desmontadas, afirmaram. Segundo a mídia alemã, as peças deverão ser levadas por dois aviões do tipo Antonov, o que leva a crer que a fuselagem será transportada separadamente dos demais componentes. É provável que o transporte aconteça até meados de setembro, pois o avião deverá fazer parte das comemorações, em meados de outubro próximo, dos 40 anos do sequestro que marcou a recente história alemã.

Outono Alemão

A aeronave foi sequestrada em outubro de 1977, com mais de 90 pessoas a bordo, por quatro integrantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina, que, para liberar os reféns, pedia a libertação de membros da Fração do Exército Vermelho (RAF) presos na Alemanha.

No dia 13 de outubro, a aeronave partiu de Palma de Mallorca, na Espanha, com destino ao aeroporto de Frankfurt. Ao entrar no espaço aéreo francês, os extremistas, armados com pistolas e granadas, anunciaram o sequestro e deram início à jornada de 106 horas que terminaria apenas na Somália.

Para libertar os passageiros, o grupo exigia que o governo alemão soltasse integrantes da RAF presos na Alemanha. Berlim se recusou a libertá-los. Antes de pousar em Mogadíscio, durante o sequestro, o avião fez paradas para reabastecer em Roma, Lárnaca, Bahrein, Dubai e Áden.

Após o assassinato do piloto em frente aos passageiros, no dia 16, o copiloto foi obrigado a continuar sozinho a jornada. Na capital somali, forças especiais da polícia federal da Alemanha conseguiram libertar a aeronave na madrugada do dia 18 de outubro de 1977. Três dos quatros sequestradores foram mortos na ofensiva.

Depois do fracasso da ação terrorista, Andreas Baader, Jan-Carl Raspe e Gudrun Ensslin, membros destacados da RAF, cometeram suicídio coletivo na prisão. Após o sequestro, a aeronave continuou transportando passageiros da Lufthansa até ser vendida pela empresa alemã em 1985.

O Landshut teve vários proprietários e passou a levar cargas. Até 2008, ele voou pela TAF, de Fortaleza. Devido a pendências judiciais da empresa, o avião foi penhorado e há nove anos está parado no cemitério de aviões da capital cearense.

Polêmica com ministérios

Em tempos marcados por ameaças terroristas em toda a Europa, o fato de o Landshut ter se tornado um símbolo da força do Estado contra o terror explica o interesse das cidades alemãs pela aeronave. De acordo com a Spiegel, Thomas Liebelt, empresário de Flensburg, se dispôs a gastar 2 milhões de euros (cerca de 7,6 milhões de reais) na construção de um Museu Landshut em sua cidade.

Segundo reportagem da revista, a prefeita teria conversado ao telefone com Martin Schäfer, porta-voz do Ministério do Exterior em Berlim. Este teria lhe "avisado claramente de um processo de licitação", disse Lange.

"Dizer à prefeitura de Flensburg que haveria um concurso e que eu, a prefeita, seria informada do início desse processo, sem que isso tenha acontecido, não é compreensível", afirmou Lange.

Segundo o jornal Südkurier, da região do Lago Constança, Lange foi surpreendida ao saber da escolha de Friedrichshafen pelo rádio. O Ministério do Exterior contesta a versão de Lange sobre os acontecimentos, aponta a Spiegel.

A Deutsche Welle tentou contatar o ministério sobre o assunto, mas não obteve resposta. Também no Ministério da Cultura há dúvidas sobre a exibição do Landshut em Friedrichshafen. Isso pôde ser lido na ata de uma reunião entre representantes do Ministério do Exterior, do Ministério da Cultura, da Fundação Dornier e da Casa da História de Bonn, que aconteceu no dia 8 de agosto em Friedrichshafen, escreveu a Spiegel.

O Ministério da Cultura teria criticado os planos da pasta do Exterior de que técnicos remontem imediatamente as peças do Landshut após a sua chegada a Ludwigshafen. Para a pasta comandada pela ministra Monika Grütters seria preciso que antes seja desenvolvido um conceito para a exposição.

Até agora não existem "documentos consistentes" sobre o projeto, criticaram as autoridades do Ministério da Cultura, segundo a Spiegel. Representantes de Grütters apontaram que o financiamento da exposição [do avião] ainda não está garantido. De acordo com a Spiegel, as autoridades do Ministério da Cultura também rejeitaram a ideia do Museu Dornier de que a pasta participasse do financiamento do projeto de exposição da aeronave. "Um apoio financeiro contínuo para a operação do museu não é possível", disseram representantes do ministério.

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