Chefe da ONU apela a líder birmanesa por minoria rohingya

António Guterres aponta "última chance" para Suu Kyi sustar violência do governo contra minoria étnica muçulmana de Myanmar. Saldo já chega a 400 mortos, 170 aldeias destruídas, 410 mil refugiados em Bangladesh.O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, fez um apelo à líder política de facto de Myanmar, Aung San Suu Kyi, para que interceda pelo fim violência contra a minoria rohingya no oeste de seu país, que vem causando grave crise migratória ao longo da fronteira com Bangladesh. "Eu esperaria que a líder do país seja capaz de conter [a violência] e de reverter a situação", comentou Guterres em entrevista à emissora BBC, neste domingo (17/09). "Ela uma chance de fazê-lo, uma última chance, em minha opinião". "A tragédia será absolutamente horrível" se Suu Kyi e as influentes Forças Armadas birmanesas não solverem a crise em breve, alertou. Leia mais: Entenda o conflito em torno dos rohingya em Myanmar Na quarta-feira, a política prêmio Nobel da paz cancelou a viagem programada à sede ONU em Nova York. Seu porta-voz justificou a decisão por "ataques terroristas" no estado de Rakhine, onde reside a maioria dos rohingya. Apesar dos numerosos apelos internacionais, até o momento Aung San Suu Kyi tem se omitido de interferir na situação. Ela se confronta com um dilema: na qualidade de ícone dos direitos humanos de porte internacional, seu dever seria erguer a voz em nome aos rohingya, denunciando as atrocidades tanto do governo e da maioria budista, como dos instigadores muçulmanos. Por outro lado, a líder birmanesa de facto poderá ter que pagar pela iniciativa com a perda do apoio interno dos budistas. Suu Kyi deverá se pronunciar pela primeira vez sobre a situação dos rohingya em 19 de setembro. "Exemplo de limpeza étnica" Os rohingya são uma minoria étnica muçulmana, predominantemente alocada no estado de Rakhine, no oeste de Myanmar. Seus membros não são reconhecidos pelo governo como cidadãos birmaneses: do ponto de vista oficial, são apátridas, ilegais imigrados de Bangladesh durante o domínio colonial britânico. Há décadas a maioria budista do país é acusada de submetê-los a discriminação e violência. A mais recente onda de perseguição começou em 25 de agosto, quando insurgentes rohingya atacaram postos de segurança no norte de Rakhine, matando 12 agentes. O governo em Naypyidaw imediatamente iniciou "operações de neutralização" contra os insurgentes, as quais – segundo refugiados da região – tem visado toda a população rohingya, indiscriminadamente. A ofensiva oficial já deixou 400 mortos e mais de 170 aldeias rohingya destruídas. O comissário das Nações Unidas para os direitos humanos, Zeid Ra'ad al-Hussein, classificou a operação em Rakhine como "um exemplo clássico de limpeza étnica". Necessidade no exílio, passado apagado na terra natal Tentando escapar da violência, mais de 410 mil integrantes da minoria perseguida já procuraram refúgio no país vizinho Bangladesh, maioritariamente muçulmano. "Muitos estão chegando famintos", informou neste domingo Mark Pierce, da ONG Save the Children. "A demanda de alimento, abrigo, água e assistência higiênica básica não está sendo coberta, devido ao mero volume de pessoas necessitadas." A ONU registra risco particularmente alto para os 240 mil refugiados infantis na região fronteiriça entre Myanmar e Bangladesh, pois "há muitas crianças debilitadas e desnutridas entre os recém-chegados". Segundo o representante das Nações Unidas em Bangladesh, Edouard Beigbeder, "se não forem tomadas medidas preventivas adequadas, pode haver um surto de doenças altamente infecciosas, sobretudo sarampo." Enquanto isso, o governo birmanês está pronto a obliterar até o passado dos rohingya: o ministro de Assuntos Religiosos e Cultura, Aung Ko, anunciou o lançamento de um livro de história sem qualquer menção à minoria muçulmana. "A verdade é que a palavra rohingya nunca foi usada ou existiu como etnia ou raça na história birmanesa", declarou em dezembro de 2016. AV/ap,afp,rtr,dpa

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