Bibliothek: Tradutores alemães dedicados à literatura brasileira

Ricardo Domeneck

Quem são hoje os alemães que se dedicam a transportar os livros brasileiros para os leitores de língua alemã? Um pequeno relatório desta brava gente.Por muitos anos, a literatura brasileira na Alemanha esteve nas mãos de um homem, o sr. Curt Meyer-Clason (1910–2012). Grandes nomes de nossas letras modernas primeiro encontraram suas vozes em alemão através dele. Uma pequena lista dá a ideia de seu trabalho impressionante: romances e contos de Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Jorge Amado, Ignácio de Loyola Brandão, Adonias Filho e João Guimarães Rosa, assim como poemas de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. Velhas edições da mais prestigiosa editora alemã, a Suhrkamp, ainda podem sem encontradas com estas traduções. É sua, por exemplo, a única tradução até o momento de Grande Sertão: Veredas (1956), o catatau intraduzível de Guimarães Rosa. Até o momento, digo, porque todos esperamos ansiosos pelo trabalho do homem que parece ter assumido o manto de tradutor teuto-brasileiro por estas bandas, o sr. Berthold Zilly, que vem trabalhando em uma nova tradução para a obra-prima do escritor mineiro. Ele está preparado para a empreitada, tendo enfrentado no passado a difícil tradução de dois outros textos de grande sofisticação verbal: Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, e Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, ambos lançados com pompa pela mesma Suhrkamp. É dele ainda a primeira tradução do último romance de Machado de Assis, Memorial de Aires (1908). Outros têm se dedicado à literatura contemporânea, como é o caso de Maria Hummitzsch, que traduziu Caio Fernando Abreu, Francisco Azevedo, Beatriz Bracher e Cecilia Giannetti; e ainda Michael Kegler, que vem traduzindo Luiz Ruffato, João Paulo Cuenca, Michel Laub, André Sant'Anna e Moacyr Scliar. O trabalho de um tradutor sempre acaba guiada por seus gostos, sua própria personalidade, especialmente quando se dedica a uma literatura ainda algo marginal no contexto internacional. É preciso dizer que muito mudou nos últimos anos, com a inserção do Brasil em um novo contexto, a bolsa para tradutores da Biblioteca Nacional, e o interesse que a obra de Clarice Lispector gerou no mundo anglófono. Todos estes tradutores dedicam-se à língua portuguesa em geral, traduzindo também portugueses, angolanos e moçambicanos. Minha admiração pessoal hoje entre os tradutores alemães, porém, está com duas pessoas, é claro que por uma própria questão de gosto e personalidade. Se menciono Odile Kennel aqui, não é apenas por ela ser a tradutora do meu trabalho. Mas por sua dedicação a uma arte ainda negligenciada no mercado como é a poesia, tendo traduzido Carlito Azevedo, Angélica Freitas e Érica Zíngano, entre outros. Ela própria uma excelente poeta e romancista da língua alemã, Odile Kennel foi criada em um lar bilíngue na fronteira entre Alemanha e França, e talvez resida já aí sua sensibilidade para outras línguas, em especial as latinas. O outro tradutor apareceu há pouco no cenário, e vem traduzindo algumas coisas que surpreendem no primeiro olhar. Oliver Precht, formado em filosofia e membro fundador da Turia & Kant, uma editora que vem lançando textos filosóficos, primeiro apareceu no meu radar com sua tradução comentada dos 'Manifestos' de Oswald de Andrade, assim como ensaios clássicos sobre o autor escritos por Benedito Nunes e Haroldo de Campos. Ele próprio publicou junto à tradução um longo e erudito ensaio sobre o antropófago brasileiro, que deveria ser traduzido por sua vez para o português. A Turia & Kant lançou neste último ano duas outras traduções suas, estas mais voltadas ao interesse filosófico do coletivo editorial: A crise da filosofia messiânica (1950), do mesmo Oswald de Andrade, e ainda A inconstância da alma selvagem (2002), de Eduardo Viveiros de Castro. Há, é claro, ainda vários outros dedicando-se à tradução de nossas letras. Estes homens e mulheres ajudam os brasileiros vivendo na Alemanha a se sentirem, eu ousaria dizer, um pouquinho melhor compreendidos. Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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