Opinião: Menos Trump e mais Europa

Max Hofmann (av)

Ao discursar na Assembleia Geral da ONU, presidente dos EUA lançou provocações à Coreia do Norte e ao Irã. O líder americano coloca em risco a paz mundial e tem muito a aprender com a diplomacia da UE, opina Max Hofmann.Será que alguém poderia distrair o presidente dos Estados Unidos? Com um objeto brilhante, talvez? Ou, senão, com um vídeo engraçado do Youtube ou mais um pseudocomício eleitoral no interior dos EUA? Porque, quando Donald Trump se ocupa de temas de política externa – Coreia do Norte ou Irã –, por exemplo, seus parceiros ficam pálidos de horror, sobretudo na Europa. Após anos de preparativos, os parceiros de negociação ainda tiveram que lutar outros 20 meses pelo acordo nuclear com Teerã. A União Europeia também participou e ostentou alto os louros da vitória. Afinal de contas, o elemento decisivo aqui foi justamente aquele com que os europeus preferem solucionar as crises: diplomacia clássica. De lá para cá, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) conferiu oito vezes se os iranianos estão realmente cumprindo as condições: a resposta foi sempre "sim". Os resultados foram tão convincentes, que a própria chefe de governo alemã, Angela Merkel, sugeriu tomar o acordo como modelo para procedimentos futuros com Pyongyang. Aí vem Trump e ameaça destruir o maior êxito da diplomacia internacional em anos recentes. Para quê? Para manter uma promessa eleitoral demente. Além disso, menciona Coreia do Norte e Irã num fôlego só, esbravejando que é preciso tratar ambos com a mesma dureza. Os europeus não cometeriam o erro de colocar esses dois países na mesma panela. Eles sabem que consequências devastadoras teria, bem às suas portas, uma rescisão do pacto com o Irã: desestabilização do Oriente Médio; reorientação de Teerã em direção ao Oriente, para a China e a Rússia; fortalecimento das forças antiocidentais radicais, e assim por diante. Então, o que pode fazer a União Europeia (UE)? Ela manterá o acordo – como já anunciou a chefe de sua diplomacia, Federica Mogherini –, quer os EUA o abandonem, quer não. Na prática, isso pode significar que os americanos voltem a impor sanções, mas os europeus, não. Desse modo, ambos entrariam num curso direto de confrontação. É sabido como o presidente dos EUA reage a esse tipo de coisa. Ao mesmo tempo, o Ocidente perderia toda credibilidade como unidade moral e política, ficando debilitado de forma duradoura. Pois, se os EUA e a UE não são mais capazes de proceder com coesão, ninguém mais os levará a sério. Assim, à UE nada mais resta além de empregar sobre a administração Trump toda influência que ainda lhe reste: os europeus precisão tentar manter os americanos no acordo. A rigor, o êxito dos últimos anos deveria falar por si, mas sabe-se que fatos não contam mais na Casa Branca. Em relação ao acordo de Paris sobre o clima, Merkel e companhia já tentaram recolocar Trump no caminho da razão, sem sucesso. Mas aqui o que está em jogo é uma nova guerra fria – ou até quente – e uma região já altamente volátil. A situação poderia escalar rapidamente. Para a Coreia do Norte, as perspectivas são ainda mais sombrias do que para o Irã. Aí, a influência dos europeus é modesta: na briga de galos atômica entre Trump e Kim Jong-un, a União Europeia não pode e não quer competir. Seu apelo de, também neste caso, só se empregarem recursos políticos e diplomáticos, soa quase como se os europeus quisessem tapar o sol com a peneira. No entanto, esse é o caminho certo e, para a UE, o único viável. E mais uma vez fica demonstrado quão grande se tornou o abismo separando a Europa e os EUA em questões delicadas de política externa. Mas Trump vai ter que aprender uma coisa com os europeus, se quiser mesmo preservar a paz mundial, como anunciou antes da Assembleia Geral da ONU. Suas ameaças, em relação tanto a Teerã quanto a Pyongyang, têm o potencial de arremessar o mundo num precipício. A abordagem europeia, diplomática, pode por vezes parecer um tanto fraca, mas foi a única que realmente funcionou nos últimos anos. Por demasiadas vezes, os americanos tentaram a via militar – na Líbia, Iraque, Afeganistão – com resultados em parte desastrosos. Por isso, o roçar de sabres de Trump, aliado a sua reivindicação de uma renegociação do acordo com o Irã, soa para os ouvidos europeus ao mesmo tempo ameaçador e vazio. Todos acreditam que o presidente dos EUA seja capaz de uma ofensiva militar cega. Para negociações equilibradas e complexas, faltam ao homem zangado da Casa Branca paciência, especialistas e competência. Isso tudo a Europa tem.

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