Opinião: Alemanha não será mais a mesma após vitória de ultradireita no Parlamento

Ines Pohl

  • Reuters/Wolfgang Rattay

    24.set.2017 - Polícia alemã bloqueia rua em frente a manifestantes contrários ao partido anti-imigração para a Alemanha (AfD), depois das eleições legislativas do país

    24.set.2017 - Polícia alemã bloqueia rua em frente a manifestantes contrários ao partido anti-imigração para a Alemanha (AfD), depois das eleições legislativas do país

Esta eleição é marcada por cisão histórica, com entrada de partido populista de direita no Parlamento. Ao menos os tempos de debates intensos e oposição atuante estarão de volta, diz a editora-chefe da DW, Ines Pohl.

Esta eleição tem uma mensagem clara: não dá para continuar como está. E ela têm dois claros perdedores: o SPD (Partido Social-Democrata) e Angela Merkel.

O SPD caiu para cerca de 20%, o pior resultado do pós-Guerra, e a CDU (União Democrata Cristã), o partido da chanceler federal, perdeu cerca de oito pontos percentuais em relação a 2013. Um tombo – e, em tempos normais, um motivo para se pensar em renúncia. Mas, para os padrões da Alemanha, estes não são tempos normais, como fica claro também na entrada da AfD (Alternativa para a Alemanha) no Parlamento, com 13%.

Desde a fundação da República Federal Alemã, é a primeira vez que um partido populista de direita entra com tanta força no Parlamento. Trata-se de uma cisão histórica.

Depois da eleição deste domingo, o país não será mais o mesmo. Isso não é um detalhe. Mas também não é – ainda – uma catástrofe. É um desafio, e, no fim das contas, democracia. E, na comparação internacional, há bons motivos para acreditar que a Alemanha saberá superar também esse desafio.

E também há um lado positivo quando, no Parlamento, houver de novo o debate pelo melhor argumento, e não uma chanceler ultrapoderosa porque não existe oposição. Também essa é uma mensagem deste domingo.

Fundamental é que os partidos democráticos não se deixem desviar do discurso democrático pela retórica demagógica da AfD. Eles devem resistir à tentação das soluções populistas deformadas e procurar respostas reais para os problemas existentes, e finalmente levar a sério que muitas pessoas têm medo de como os muitos refugiados podem mudar o próprio país. 

A Alemanha precisa repensar sua capacidade de debate. Transformar medos em tabu fortalece os extremos políticos. Também essa é uma mensagem dessa eleição.

O primeiro grande desafio será formar uma coalizão de governo. É sensato que o SPD anuncie logo que vai para a oposição. Só assim o partido poderá se redefinir e criar uma perspectiva de futuro. E, além disso, só assim poderá se evitar que a AfD se torne o principal partido da oposição no Parlamento.

Merkel entra nessas negociações complicadas com os outros partidos após ter sofrido um duro golpe. Com o peso nos ombros de que muitos dentro das próprias fileiras a responsabilizam – e sua política de refugiados – pelo desastroso resultado do seu partido. 

E, do outro lado, o mundo inteiro coloca nela a esperança de que, apesar desse resultado, ela continue sendo uma das líderes políticas do mundo ocidental e, com ela, a Alemanha continue sendo um parceiro estável e confiável, e na condição de uma nação liberal e profundamente democrática. A favor disso fala também a Lei Fundamental (Constituição) – que vale para todos, incluindo a AfD. O Artigo 1º diz: a dignidade humana é inviolável.

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