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Zeitgeist: A insatisfação com Merkel dentro da CDU

Alexandre Schossler

28/09/2017 13h26

Chanceler venceu a eleição, mas seu partido obteve segundo pior resultado do pós-Guerra. Críticas ainda não são abertas e amplas, mas insatisfação com a política dela entre os conservadores é mais forte do que nunca.Foi o que se chama de vitória com gosto de derrota: a chanceler federal Angela Merkel conseguiu conduzir a sua aliança de partidos – a União Democrata Cristã (CDU) e a União Social Cristã (CSU) – à vitória na eleição legislativa alemã, mas o resultado ficou bem aquém do que os conservadores estão acostumados a alcançar: meros 33%.Opinião: Precisamos mesmo de Merkel?Diante das câmeras, o partido festejou, mas internamente não havia como esconder a insatisfação. E quando Merkel, no dia seguinte, se dirigiu aos jornalistas para dizer que não via nada que pudesse ter feito de forma diferente durante a campanha, a paciência de muitos conservadores se esgotou de vez."Temos de ser o partido que é conhecido por ser uma garantia de manutenção das regras, seja na imigração ilegal, seja na estabilidade do euro", afirmou um correligionário. Outros defenderam a adoção de posições claras, sobretudo na política de refugiados e na segurança interna. E um pequeno grupo da ala mais à direita foi além e pediu a renúncia de Merkel da chefia da CDU.Ao menos por enquanto, porém, a tendência dominante dentro do partido é evitar as críticas abertas. A explicação é simples: em três semanas haverá eleições estaduais na Baixa Saxônia, e a CDU tem boas chances de chegar ao governo. Passar uma imagem de unidade ajuda.Mas a verdade é que os ânimos fervem dentro do partido conservador. O passado mostra que a CDU costuma tolerar muita coisa de seus chanceleres enquanto eles ganharem eleições. Mas quando o poder em Berlim estiver ameaçado, o partido sabe ser impiedoso – vide o caso Helmut Kohl, em 2005.Agora a insatisfação se volta contra Merkel. Há tempos que ela já vinha sendo vista com desconfiança por muitos conservadores, que a veem como uma social-democrata disfarçada. Uma série de decisões polêmicas para os padrões conservadores, culminando no ingresso de centenas de milhares de refugiados no fim de 2015, fizeram crescer a má-vontade com a chanceler. Mas ela vencia eleições, então tudo se tolerava, ainda que com desconfiança.Agora essa postura mudou. Isso se tornou evidente durante a primeira reunião da nova bancada conservadora, esta semana em Berlim. Um deputado que disse ter esperado mais clareza de Merkel em alguns temas, como o ingresso de famílias de refugiados, foi aplaudido.Depois veio a reeleição de Volker Kauder, um aliado de Merkel, para a liderança da bancada da CDU/CSU. Ele venceu, mas obteve 50 votos contrários numa bancada de 246 deputados (na atual legislatura são 309, e isso que o Bundestag passou de 630 para 709). Há quatro anos, Kauder fora eleito com 90% dos votos.E há ainda a CSU, o partido conservador da Baviera. O clima é de nervosismo e insatisfação em Munique depois do resultado de 38% na eleição, o pior do pós-Guerra. A liderança da CSU teme agora perder a maioria absoluta nas eleição estadual de setembro do ano que vem e quer de todas as maneiras limitar os estragos. A principal culpada: Angela Merkel, que ignorou os apelos do partido por um teto para o ingresso de refugiados.A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que recebe no dia a dia.