Coreia do Norte ignora sul e reabre parque industrial conjunto

Julian Ryall (as)

Cerca de dois anos depois de Coreia do Sul ter suspendido colaboração em Kaesong, norte assume comando de fábricas para contornar sanções econômicas internacionais.A Coreia do Norte reabriu, de forma unilateral, as operações na zona industrial conjunta de Kaesong, cerca de um ano e meio depois de o governo da Coreia do Sul ter retirado seus cidadãos de lá e parado as máquinas em resposta ao quarto teste nuclear de Pyongyang e ao lançamento de um foguete.

A mídia estatal da Coreia do Norte indicou, na sexta-feira passada (06/10), que o regime reiniciou operações em algumas fábricas da zona conjunta, que fica a dez quilômetros ao norte da área desmilitarizada que divide a península.

Há fortes suspeitas de que o regime em Pyongyang esteja usando máquinas e material deixados pelos proprietários de cerca de 120 empresas sul-coreanas quando elas foram ordenadas a sair do local, em fevereiro de 2016, por no mínimo seis meses.

O site norte-coreano de propaganda Uriminzokkiri afirmou que as unidades estão dentro do território da Coreia do Norte e, portanto, sujeitas à legislação do país. Segundo a página, outros países – numa clara referência à Coreia do Sul – não têm o direito de interferir na questão.

Histórico de expropriações

Analistas afirmam que Pyongyang tem um histórico de simplesmente expropriar o patrimônio de empresas, mas que o atual movimento do regime pode indicar desespero à medida que as sanções impostas pelas Nações Unidas começam a produzir efeito.

"Esse é o exemplo mais recente numa longa linha de comportamento de um país que é comandado por diretivas partidárias e onde as pessoas recebem ordens de cima e simplesmente as cumprem", afirma o professor de relações internacionais Daniel Pinkston, da Universidade Troy, em Seul.

"Eles devem ter visto que as empresas sul-coreanas deixaram equipamentos e matérias-primas para trás, e o norte não tem nenhum problema em simplesmente expropriar tudo", comenta.

Em anos anteriores, a montadora sueca Volvo ficou no prejuízo depois de exportar mil carros para a Coreia do Norte, que nunca pagou. E empresas ferroviárias chinesas pararam de enviar vagões para o outro lado do fronteira porque eles simplesmente não retornavam.

Recentemente, a empresa de telecomunicações egípcia Orascom ficou de mãos vazias quando o governo da Coreia do Norte simplesmente assumiu o controle da companhia que havia sido criada em Pyongyang para estabelecer uma rede de telefonia celular.

Outro caso parecido envolveu a empresa sul-coreana Hyundai, que investiu muito, com o aval de Seul, para desenvolver o turismo na região de Monte Kumgang, em 1998. Dez anos depois, quando um turista sul-coreano foi morto a tiros por um soldado do norte, a Coreia do Sul proibiu as visitas de seus cidadãos. Dois anos depois, a Coreia do Norte, de forma unilateral, assumiu o controle de cinco propriedades de empresas do sul e começou a promover o Monte Kumgang para turistas chineses.

Efeitos das sanções

Pinkston avalia que o norte está sentindo os efeitos das sanções internacionais, apesar de achar provável que Pyongyang teria expropriado as unidades em Kaesong e reiniciado as operações mesmo se não houvesse pressão internacional por causa de seu programa de armas nucleares e mísseis.

A zona industrial de Kaesong foi aberta em dezembro de 2004, como uma ação de aproximação e confiança entre Seul e Pyongyang, e teve, no auge, 123 empresas, que empregavam cerca de 53 mil operários norte-coreanos e outros 800 funcionários sul-coreanos. Os salários dos trabalhadores norte-coreanos chegaram a 90 milhões de dólares anuais – e eram pagos para o governo da Coreia do Norte.

A maioria das empresas sul-coreanas que se instalaram no local fabricava tecidos e se valia dos salários baixos e das vantagens fiscais. Outras fabricavam produtos químicos, sapatos, relógios, maquinário e dispositivos eletrônicos.

O especialista em relações internacionais Stephen Nagy, de Tóquio, afirma que Pyongyang tem três bons motivos para assumir o controle da zona industrial de Kaesong. "Primeiro, eles conhecem os recursos disponíveis e sabem que a produção própria vai ajudar a diminuir o impacto das sanções", diz. "Além disso, trata-se de uma mensagem para a Coreia do Sul, de que eles estão seguindo em frente por conta própria e não precisam mais do apoio econômico nem das divisas do sul."

Apoio da China e da Rússia

"Por fim, trata-se também de uma mensagem para as potências regionais: a Coreia do Norte não está mais disposta a ser comandada de cima e pretende continuar a desenvolver sua economia e seus programas nuclear e de mísseis em paralelo", afirma.

Nagy se mostra pouco convencido de que sanções forçarão o regime em Pyongyang a ceder. "Parece que estão produzindo têxteis em Kaesong, assim como as empresas da Coreia do Sul faziam antes, e eles podem ser exportados ilegalmente através da China e da Rússia", acrescentou. "Não está bem claro que esses dois países de fato fecharam suas fronteiras, em conformidade com as sanções da ONU, e minha impressão é de que tanto Pequim como Moscou estão tentando engajar o governo norte-coreano para seus próprios propósitos em vez de isolá-lo."

O Ministério da Unificação da Coreia do Sul, que é responsável pelas relações com o norte, já apelou várias vezes à Coreia do Norte para que não viole os direitos dos proprietários sul-coreanos em Kaesong, mas analistas dizem que não há meios eficazes de impedir Pyongyang de simplesmente usar os equipamentos e as matérias-primas. Os proprietários das unidades em Kaesong deverão se reunir nesta quarta-feira (11/10), em Seul, para avaliar suas opções.

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