A nudez através da arte

Clarissa Neher

Um dos motivos mais antigos e explorados por artistas - o corpo humano nu - ainda causa controvérsia. Tema serviu muitas vezes para quebrar tabus, em diferentes épocas.O corpo nu é um dos motivos mais retratados e antigos na história da arte, aparece inclusive em esculturas pré-históricas. Essa representação, que resistiu até a períodos mais sombrios, como a Idade Média, no entanto, nem sempre foi percebida com naturalidade e ainda gera controvérsia.

A nudez é explorada em algumas das obras mais famosas do mundo, como Vênus de Milo (século 2 a.C.); Laocoonte e seus filhos (entre os séculos 1a.C. e 1 d.C.); O nascimento de Vênus de Botticelli (1484); David de Michelangelo (1501); As três graças de Rafael (1504); Olympia de Manet (1863); Nu deitado de Amedeo Modigliani (1917); e As mulheres de Argel de Picasso (1955). Recentemente foi descoberta até uma versão nua da famosa Mona Lisa, que teria sido pintada, pelo menos em parte, pelo próprio autor da original, Leonardo Da Vinci.

"A nudez é um dos temas base da arte. Até na Idade Média e na arte otomana havia representações de mulheres nuas", afirma Ulrich Pfisterer, diretor do Instituto Central para História da Arte, de Munique.

Dependendo do período, lembra o pesquisador, esse motivo era retratado com maior ou menor frequência. Enquanto na Idade Média a nudez era tolerada apenas em determinados motivos religiosos, como Adão e Eva, durante o período clássico ou na Renascença ela representou ideais de beleza e força. Nesta última época, o estudo do corpo humano também passou a ser um dos pontos centrais na formação de artistas.

De acordo com o historiador Karlheinz Lüdeking, no século 19, o desenho do nu era matéria obrigatória em academias de artes. "Por questões morais, essa obrigatoriedade proibiu a entrada de mulheres nestes espaços. Em Berlim, somente a partir de 1918 mulheres poderiam estudar arte", destaca o professor de história da arte na Universidade de Artes de Berlim.

Na segunda metade do século 19, a representação do corpo nu alcançou seu auge, com os impressionistas Édouard Manet, Edgar Degas e Pierre-Auguste Renoir. Nos períodos posteriores, o motivo manteve a posição de prestígio conquistada e seguiu inspirando artistas como Paul Cézanne, Pablo Picasso e a brasileira Tarsila do Amaral.

Escândalos e meio de protesto

A representação do corpo nu nem sempre foi apenas uma consagração a padrões de beleza e, em determinados momentos, serviu para quebrar tabus. Em 1430, Donatello apresentou ao mundo a escultura de bronze de David – um jovem nu pisando sobre a cabeça de Golias.

"Essa obra era praticamente uma provocação, pois tinha claramente um fundo homoerótico", afirma o historiador Lüdeking.

Exposto ou não como provocação, o corpo humano nu causou protestos ao longo da história. Por volta de 1797, Francisco de Goya pintou sua famosa obra A maja nua. A ousadia lhe custou um processo aberto pela Inquisição Espanhola.

Em 1865, a Olympia de Manet causou um dos maiores escândalos da história da arte e foi considerada por conservadores vulgar e imoral. Mas esta não era a primeira vez que o pintor chocava a sociedade francesa. Dois anos antes, o quadro Almoço sobre relva, que retrata uma mulher nua conversando com homens vestidos, chegou a ser considerado por Napoleão 3º um atentado ao pudor.

A nudez como instrumento para contestar padrões sociais ganhou um novo impulso na década de 1960, com a performance. O corpo nu passou a ser uma arma, utilizada principalmente por mulheres, no protesto contra a dominação masculina, representações sexuais e desigualdades sociais.

Neste contexto, surgem nomes como Carolee Schneemann, Valie Export e Marina Abramovi?. Numa de suas performances mais conhecidas, Imponderabilia, de 1977, Abramovi? e seu então parceiro Ulay ficam parado nus um de frente para outro, a uma distância de cerca de 30 centímetros, encostados numa estrutura que representa uma porta. Para entrar no museu, os visitantes precisavam passar pelo casal e, na escolha do lado para passar de frente, eram confrontados com seus próprios tabus.

Devido a essa intensa exploração da nudez, Lüdeking considera que, atualmente, o corpo nu não é mais um tabu na arte. "A nudez não causa mais um efeito subversivo ou provocativo, mas virou algo convencional", argumenta.

Já para Pfisterer, a nudez ainda tem grande potencial para causar polêmica. "Depende muito do contexto cultural onde ela acontece. Neste caso, não só o contexto histórico que é importante, mas também o geográfico", opina.

Recentemente, para atrair famílias, o Museu d'Orsay, em Paris, relançou uma campanha onde um dos slogans é "Tragam seus filhos para ver gente nua". A estratégia foi bem recebida pelos franceses.

Em entrevista ao conglomerado francês de mídia RFI, a diretora de comunicação do museu, Amélie Hardivillier, disse que a relação com a nudez ainda causa debate, mas destacou que uma das funções da arte é justamente o questionamento.

Neste debate, Lüdeking ressalta que a arte sempre precisa ser analisada a partir da mensagem que pretende passar: "Coisas que acontecem na arte estão lá para serem observadas e interpretadas."

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