Pé na praia: O antropólogo e os bordéis

Thomas Fischermann

Com ajuda de especialista em prostituição, o correspondente Thomas Fischermann tentou compreender o funcionamento da indústria do sexo no Rio e a possível influência da prefeitura de Crivella sobre o setor.Conheci Thaddeus Blanchette em 2014 – um antropólogo de 50 e poucos anos, barba grisalha, imigrante dos EUA, hoje com passaporte brasileiro. Lembro-me bem de como foi o nosso primeiro encontro. Depois de nos despirmos até ficarmos só de cuecas, uma funcionária de um bordel no centro do Rio nos entregou uns roupões puídos, e nos levou a um salão espelhado. Lá, todo mundo usava o mesmo tipo de roupão, menos as mulheres.

"Estamos no que se chama de terma, um bordel no estilo de uma sauna para a classe média alta", explicou Blanchette. Apropriou-se de uma mesa em um canto, contou os clientes, rabiscou um bloco com vários números. Bebericou um Red Bull e disse para a loira que encostava o joelho em seus ombros: "Estou trabalhando."

Na época, eu saía com o antropólogo para compreender melhor a prostituição no Rio de Janeiro, o turismo sexual e as muitas acusações de tráfico humano às vésperas da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

Ao reencontrá-lo três anos depois, eu estava interessado em outro tema. Quais seriam os impactos da prefeitura do evangélico Marcelo Crivella sobre a prostituição no Rio? Será que ele conseguiria limpar a imagem da cidade como alvo de turismo sexual?

Thaddeus riu ironicamente quando fiz a pergunta. "Pode ser que a prostituição e o turismo sexual tenham experimentado uma queda, mas não tem nada a ver com qualquer medida de limpeza", disse. Mesmo? Apesar da nova prefeitura voltada aos bons costumes, que gostaria de proibir até mesmo o Carnaval? "Deixa eu te contar um segredo: o evangelicalismo sempre foi bom para a prostituição", respondeu o especialista.

Blanchette vive há 25 anos no Rio e é conhecido como uma das maiores autoridades sobre prostituição. É professor na Universidade Federal, promove pesquisas juntamente com sua esposa brasileira e se engaja em trabalhos sociais que representam os interesses das prostitutas. Uma vez por mês, ele vai visitar os bordéis: conta o número dos clientes e das trabalhadoras, entrevista gerentes, policiais, acompanha relatos de abusos e ilegalidades.

Com toda essa informação, vai alimentando o banco de dados sobre prostituição mais completo do Rio de Janeiro: dos bordéis de luxo da Zona Sul até os "fast fodas" em locais menos apreciados da cidade, onde 15 minutos de sexo são oferecidos por dez euros.

"No ponto alto do turismo sexual no Rio, em 2003 e 2004, de acordo com nosso cálculo, cerca de 700 prostitutas trabalhavam nos estabelecimentos de Copacabana", estima Blanchette. "Hoje o número caiu pela metade."

Alguns dos locais teriam fechado. Seria impossível contabilizá-los completamente, pois uma parte do negócio migrou para o mundo virtual. "Algumas mulheres não ficam mais nos bordéis, como o que visitamos naquela ocasião, mas talvez num bar normal, com seus celulares", explicou o antropólogo.

Já antes dos Jogos Olímpicos e de Crivella, a prefeitura havia se esforçado para fechar alguns estabelecimentos especialmente visíveis e anunciado alguns despejos, por exemplo, de salões de massagens registrados como negócios de "importação e exportação". Também mandou fechar bordéis sob a alegação de estado precário do imóvel. A especulação imobiliária exerceu um papel importante.

"Então, isso não conseguiu deixar a imagem da cidade mais limpa?", perguntei. "Sim, mas na era Crivella, alguns salões de massagem estão reabrindo, porque, em tempos de crise, eles estão entre os poucos que podem pagar o aluguel", respondeu Blanchette.

Para o professor, não é a fiscalização que determina os lucros do turismo sexual no Rio. Para a Copa do Mundo, segundo Blanchette, teriam vindo poucas pessoas com interesse em frequentar bordéis – várias prostitutas teriam relatado que tinham grande expectativa, mas ficaram desapontadas. Então veio a epidemia do zika, que afastou muitos turistas. Os Jogos Olímpicos contaram com um público mais interessado em esporte do que em turismo sexual. E hoje, muitos turistas em potencial têm medo da violência urbana.

Blanchette defende algumas teses inquietantes e vai publicá-las a seguir em seu livro Sex Games. Uma parte de seu trabalho antropológico (mas não todo) é criticada por feministas brasileiras. O especialista não nutre ilusões sobre a realidade dura do trabalho com sexo, mas também acredita que muita gente se manifeste publicamente contra as prostitutas sem oferecer uma maneira de ajudá-las.

Ele é da opinião de que neste debate há muito falso moralismo e mentiras – por exemplo, de que haja muita coerção, abuso e prostituição de menores de idade. "Frequento os bordéis do Rio há 14 anos, e tais circunstâncias são raras", disse Blanchette. Os gerentes de bordéis não têm interesse em se meter com a polícia, e mulheres mais velhas denunciam profissionais do sexo menores de idade – no mínimo para se livrar da concorrência, diz o professor.

Blanchette ainda vê mais uma razão para os bordéis estarem se esvaziando: a maior parte da freguesia não são turistas, mas sim habitantes da cidade. No entanto, os jovens brasileiros são capazes de encontrar parceiras e parceiros sem precisar pagar, bem diferente do que ocorria nos pudicos anos 80. "Quase não se veem mais jovens de 18 ou 19 anos nesses locais, a não ser que venham de famílias ou de áreas da cidade extremamente evangélicas, onde nada é permitido."

Como assim? "Sim, o evangelicalismo é bom para a prostituição", disse o antropólogo. "Prostitutas sempre obtiveram muitos lucros em épocas de moralistas". Desde que o negócio não seja tão explícito.

Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão die ZEIT na América do Sul. Em sua coluna „Pé na Praia" faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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