Revés na busca dos curdos por um Estado próprio

Kersten Knipp (ca)

Os curdos iraquianos almejam a independência em todos os níveis, mas enfrentam dura resistência do governo em Bagdá, que envia seu Exército e retoma região-chave militar e economicamente.As forças iraquianas, com o apoio das milícias xiitas, estão tomando o controle de várias áreas da província de Kirkuk, rica em petróleo, num esforço para minar a busca do povo curdo por um Estado próprio.

Em 25 de setembro último, os curdos iraquianos - parte do maior grupo étnico que ficou sem um Estado próprio com o colapso do Império Otomano, há um século - votaram a favor de sua independência.

Embora potências como os EUA não tenham reconhecido o referendo, a votação elevou mais uma vez o perigo da desintegração do Estado iraquiano. A coesão estatal, na visão de Bagdá, só pode ser garantida com ação militar.

Em meio a esse cenário, no último fim de semana, o Exército do Iraque conquistou partes da região de Kirkuk, incluindo uma base aérea, uma instalação de gás natural, uma usina elétrica e, possivelmente, diversos poços de petróleo a oeste da cidade.

Apesar do resultado do referendo, as forças iraquianas conseguiram tomar sem grande resistência a região, em apenas um único dia. Isso, em parte, se deu pelo fato de que Kirkuk é multiétnica – abriga não só curdos, mas também turcomenos e árabes – e por conta da atual divisão entre a população curda.

Bagdá acusa os curdos de permitir a participação de combatentes do proibido Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), ativo principalmente na Turquia. Isso é interpretado como uma "declaração de guerra" pelos líderes do país.

"O governo central e as forças militares regulares cumprirão o seu dever de defender todo o povo iraquiano, incluindo os curdos, como também a soberania e unidade iraquianas", declarou Bagdá.

A acusação de ter trazido militantes do PKK para o país foi imediatamente rejeitada por um porta-voz do governo curdo. É duvidoso que essa declaração venha acalmar o governo em Bagdá.

Na semana passada, os presidentes de Iraque, Irã e Turquia acertaram uma reunião para um futuro próximo, onde deverão discutir os esforços de independência dos curdos, que vivem nos três países. Além disso, eles também estão presentes na Síria, cujo presidente não foi convidado para a reunião.

Histórico

A Região Autônoma do Curdistão, como ela se autodenomina, aproveitou-se da derrota de Saddam Hussein na Guerra do Golfo (1990/91), para declarar a sua independência "de fato" sob a proteção da aliança anti-Saddam liderada pelos EUA, vindo a ampliar consideravelmente a sua autonomia nos anos que se seguiram.

Em 2003, eles se posicionaram ao lado dos americanos durante a intervenção dos EUA. Esse esforço levou ao reconhecimento da província autônoma pelo Iraque. Na verdade, isso significou uma proteção constitucional indireta dos direitos de autonomia adquiridos pela região do Curdistão.

Em 2005, Massoud Barzani se tornou presidente do Governo Regional do Curdistão (GRC), entidade política responsável pela administração da região autônoma. Quando, a partir de 2014, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) passou a conquistar cada vez mais territórios no Iraque, os Peshmerga – unidades militares da região autônoma – se tornaram um importante fator na luta contra os jihadistas. Além disso, os curdos acolheram muitos refugiados árabes, que, fugindo do EI, procuraram refúgio no norte do Iraque.

No tumulto da guerra

No entanto, a luta contra o EI não se baseia apenas no altruísmo: o governo regional curdo reivindica para si partes das regiões libertadas do EI por seus combatentes – como as montanhas de Sinjar e a cidade de Kirkuk.

Essa região, porém, também é reivindicada pelo governo central iraquiano. Bagdá ressalta que essas regiões não foram libertadas somente pelos curdos iraquianos, mas também por grupos curdos sírios, como as Unidades de Proteção Popular (YPG) ou o PKK. Na Síria, as YPG são apoiadas militarmente pelos EUA.

A ofensiva iraquiana contra a província autônoma do Curdistão fez com que os partidos adversários da região se aproximassem, ao menos parcialmente. Já em 2015, o presidente regional Massoud Barzani, que também é o líder do Partido Democrático do Curdistão (PDK), conseguira uma extensão extraordinária de seu mandato após dois períodos no cargo. Ele deveria ter saído em meados daquele ano, mas permaneceu. A sua legitimidade política ficou enfraquecida desde então. O maior partido de oposição, a União Patriótica do Curdistão (PUK), se atém, em princípio, a uma deposição do presidente, mas atualmente está mais reticente com suas demandas.

A Região Autônoma do Curdistão e também o Iraque como um todo deverão enfrentar tempos difíceis. "A Turquia e o Irã são mais fortes que o atual Estado curdo em formação", diz uma análise do think tank americano Stratfor. "Os árabes do Iraque não estarão dispostos a deixar Kirkuk para os curdos, e o poder militar americano também não resolverá esse problema, que poderá ser resolvido com difíceis esforços diplomáticos."

Mas esse não parece ser o caso atualmente. Diante da aproximação do Exército iraquiano, milhares de civis deixaram a cidade de Kirkuk. A palavra ainda está com os militares. A hora da diplomacia ainda não chegou.

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