Vozes a favor de autonomia regional ganham força na Itália

Ricas regiões de Vêneto e Lombardia querem mais independência, sobretudo no âmbito fiscal. Referendos foram legais e não querem separação do país. Organizadores dizem não ter nada a ver com Catalunha.Os cidadãos de duas das regiões mais ricas da Itália, Vêneto e Lombardia, optaram neste domingo (22/10) por reclamar mais autonomia ao Estado após a realização de referendos. Os governadores das províncias anteciparam que iniciarão negociações com o governo italiano nesse sentido.

As votações legais e não vinculativos (sem obrigação de mudança após o pleito) aconteceram num clima de atenção internacional à luz dos acontecimentos na Catalunha, onde as autoridades regionais tentam impulsionar a independência do governo espanhol e cujo referendo de 1º de outubro foi considerado inválido.

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No Vêneto, cuja capital regional é Veneza, com quase todos os votos apurados, 98,1% dos eleitores votaram a favor de mais autonomia. A participação eleitoral foi de cerca de 57%, superando assim os 50% mínimos exigidos para que se considerasse o referendo válido.

"Objetivo alcançado. Começa uma nova história para o nossa Vêneto", disse o presidente da região, Luca Zaia, em sua página na rede social Facebook.

Na Lombardia, com a capital Milão, com 60% dos votos apurados, 95,64% votaram a favor e 3,61% contra, com 0,75% de votos nulos. A participação eleitoral nessa região foi bastante inferior, de cerca de 40%.

Embora não houvesse um mínimo para validar a consulta na Lombardia, os opositores políticos do governador Roberto Maroni falam em fracasso político da iniciativa, já que os votos pró-autonomia não chegaram a 50%.

"Sucesso"

Maroni e Zaia pertencem ao partido eurocético e anti-imigração Liga Norte (LN), que inicialmente pretendia dividir o norte rico do sul pobre da Itália. A agremiação acalenta um ideal independentista – mas, diferentemente da Catalunha, as regiões italianas não querem se separar da Itália. Nos últimos meses, o partido passou a se concentrar na xenofobia e já não persegue a independência de forma veemente.

Zaia, comemorou os resultados como "um sucesso" e anunciou que nesta segunda-feira convocará seu gabinete para preparar um projeto com o objetivo de iniciar negociações com o governo do primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni.

Cerca de dez milhões de pessoas foram convocadas para votar nos referendos, com os quais se busca fortalecer os governos regionais na hora de exigir mais competências ao governo central, especialmente para administrar o dinheiro arrecadado nas regiões.

Zaia defendeu o modelo de uma Itália que avança para o federalismo e assegurou que exigirá de Roma 20 competências, bem como a retenção 90% dos impostos.

O subsecretário do governo italiano para Assuntos Regionais, Gianclaudio Bressa, afirmou que o governo de Gentiloni "está preparado" para as negociações, em declarações publicadas pela imprensa do país.

Exigências

Lombardia e Vêneto convocaram os referendos consultivos apoiados pela maioria de forças políticas regionais, para solicitar apoio e assim negociar com o governo uma maior autonomia – um direito já contemplado pela Constituição.

Com o referendo, as regiões esperam ter mais forças para negociar mais competências no plano educacional, do meio ambiente, da segurança e migratório – mas, sobretudo, de natureza fiscal.

As duas regiões, que somam 34% do PIB italiano, querem reduzir seu déficit fiscal. Ou seja, a diferença entre o que contribuem para o Estado e o que este "devolve". O déficit fiscal da Lombardia é avaliado em 54 bilhões de euros, e o de Vêneto, em 18 bilhões de euros.

Catalunha

Durante a comemoração da consulta e nos dias anteriores, os organizadores ressaltaram que não têm nada a ver com o pleito independentista da comunidade autônoma espanhola da Catalunha.

No enunciado do referendo na Lombardia se perguntou aos eleitores se desejam que o governo regional peça "condições particulares de autonomia" ao Estado, mas sempre "no quadro da unidade nacional".

"Não temos nada a ver com a Catalunha. Queremos autonomia, mais poder, mais competências e um federalismo fiscal, não a independência", disse Zaia, depois de votar.

As consultas nas duas regiões do norte industrializado da Itália geraram críticas por causa do seu elevado custo e porque não eram um requisito obrigatório para iniciar negociações por mais autonomia com o governo central.

Na Lombardia, houve críticas também à votação por tablets – alguns eleitores denunciaram problemas técnicos. Já Zaia admitiu que os sistemas de contagem de votos foram objeto de um ataque cibernético, o que explica o atraso na publicação dos resultados.

RK/efe/dpa

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