Quando o carteiro é um robô

Heiner Kiesel (av)

Batizado "Postbot", um veículo semiautomático faz o trabalho braçal da entrega de cartas numa cidadezinha da Alemanha. Por enquanto protótipo, ele pode ser uma visão do futuro. Mas os carteiros não temem a concorrência.O novo colega de trabalho de Cindy Rexrodt é amarelo e preto, as cores da Deutsche Post. Ele auxilia a carteira em seu trabalho pelas ruazinhas da zona antiga de Bad Hersfeld, no norte do estado de Hesse. "Ele é um alívio grande para mim, noto isso também nas minhas costas", elogia.

Na equipe formada por ser humano e robô, o "Postbot", como foi batizado, é o fortão, Rexrodt é a inteligente. Há três semanas ambos fazem juntos o trajeto de entregas: ela conhece o caminho, as caixas de correio, as placas com os nomes dos moradores e a clientela; ele a acompanha de perto, sobre as quatro rodas.

As baterias íon-lítio no chassis têm teoricamente autonomia de oito horas. "Até agora, ele sempre aguentou firme", confirma Rexrodt. E nunca deu qualquer problema, apesar do terreno acidentado: "Paralelepípedos, beiras de calçada, um monte de obstáculos", enumera a carteira de 35 anos. Ela afasta a franja loura da testa e aperta um botão na parte frontal do autômato, onde se lê "Seguir".

A dupla dinâmica avança por entre as barracas do mercado. O caminho é naturalmente apertado, o Postbot se mantém sempre cerca de um metro atrás da companheira. Os fotossensores mantêm as pernas dela constantemente na mira: suas medidas foram escaneadas e armazenadas na memória do robô, ele só segue a elas.

Quando Rexrodt para, ele para também, se necessário de modo bem brusco. "Ele nunca me atropelou os calcanhares", assegura. De resto, o artefato está sempre alerta: quando um transeunte lhe chega perto demais, ele o contorna, numa curva abrupta.

Sem competir com os humanos

Para garantir que não haja nenhuma pane com a tecnologia do futuro da Deutsche Post, um segundo funcionário segue atrás, munido de controle remoto, pronto a intervir a qualquer momento, caso o robô postal saia de controle.



Até hoje, esse nunca foi o caso, enfatiza a empresa. O mesmo se aplica a um segundo veículo automatizado, também em fase de testes em Bad Hersfeld. A tecnologia que movimenta os robôs é assinada por uma firma francesa, que há pouco menos de um ano venceu o edital dos correios para veículos de entrega automatizados.

Ambos encaram bem aquela que é normalmente a maior dificuldade para os autômatos: trafegar em meio a seres humanos, sem se deixar derrotar por seus padrões de deslocamento muitas vezes indecifráveis. A estratégia principal é estar sempre na defensiva, e sua velocidade é limitada em seis quilômetros por hora. Sair andando sozinhos, nem pensar.

"Não acredito que num futuro próximo vamos poder prescindir dos seres humanos", duvida o porta-voz da Deutsche Post para Hessen Norte e Turíngia. Já no início do teste de campo, a empresa deixou bem claro que a intenção não é substituir os funcionários, mais sim tornar seu trabalho mais leve.

A estratégia é provavelmente também necessária para dar uma cara mais atraente à profissão de carteiro – um desafio considerável para a empresa de logística, pois a atividade envolve um grau de responsabilidade e pressão de desempenho grandes.

"Há uma flutuação bem elevada no contingente dos entregadores", constata Rolf Bauermeister, do sindicato Ver.di. E os empregados dos correios não percebem os robôs como concorrência futura, uma vez que o processo de entrega, como um todo, é muito complexo. "Nesse aspecto, não vejo nenhum problema", tranquiliza o sindicalista.



"Carrinho de transporte com suporte eletrônico e eixo digital"

Também a municipalidade de Bad Hersfeld acompanha com grande interesse o modo como o robô-carteiro lida com a movimentação quotidiana nas ruas. "Nós o licenciamos como carrinho de transporte com suporte eletrônico e eixo digital", esclarece um funcionário da prefeitura. A cidade concedeu uma permissão extraordinária de quatro meses, e utiliza, ela mesma, o robô para transportar fichários entre as diferentes repartições administrativas.

Cindy Rexrodt desce agora pela rua Weinstrasse, para diante de uma livraria. O Postbot freia, ela abre as portas duplas laterais. Lá se encontram, arrumadinhas, cestas de plástico amarelas cheias de correspondência. O veículo carrega até 150 quilos de carga útil: "Na minha bicicleta de trabalho, eu levo uns 40, 50 quilos", compara a entregadora. Ela retira um bolo de cartas, fecha o robô e entra na loja. No pedestal do veículo brilha agora uma faixa de luz LED vermelha.



O Postbot atrai atenções na zona de pedestres de Bad Hersfeld. Os passantes param diante dele. Da direção da Praça do Mercado vem descendo um grupo de crianças sob os cuidados de uma educadora. Logo, mãozinhas estão acariciando a superfície arredondada e lisa do transportador cibernético. Uma senhora deixa seu cão farejar as rodas. "Ele se interessa por tudo o que tem a ver com o correio", explica.

E aí Rexrodt está de volta, aperta o botão "Seguir" e encerra sua ronda de entregas. Durante três semanas ela ainda poderá indicar o caminho a seu ajudante mecânico, antes de o experimento Postbot chegar ao fim. A carteira sorri, relaxada, caminhando pela zona de pedestres: para ela, seria bem bom se o Postbot fosse mais do que um protótipo.

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