O que está por trás das mudanças na Arábia Saudita?

Kersten Knipp (as)

Nova cidade futurística, reformas econômicas e sociais, detenções no alto escalão por corrupção: príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman está abalando estruturas do reino, mas talvez esteja apenas consolidando poder.Nem tudo está saindo como planejado na Arábia Saudita. Com a queda no preço do petróleo, a economia patina. A guerra no Iêmen é um desastre. O boicote ao Catar surte pouco efeito. E o arquirrival Irã amplia cada vez mais sua influência na região.

Quando o presente oferece tão pouco conforto, o futuro se torna ainda mais atraente como opção de fuga. Em um, dois anos, a Arábia Saudita deverá brilhar. Uma nova megacidade, batizada Neom, deverá transformar o reino num centro de alta tecnologia e atrair investidores de todo o mundo. E o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, um dos filhos do rei Salman bin Abdulaziz al-Saud, pode contar com o apoio da população para os seus planos de renovação do país.

Ele tem o apoio principalmente dos jovens, afirma o especialista em Oriente Médio Sebastian Sons. "Com 30 e poucos anos, ele é um representante dessa geração. Ele fala de forma clara, é autocrítico. Seus planos ambiciosos geram otimismo e dinâmica social. As pessoas se sentem motivadas e querem levar o país adiante."

Início de uma fase

No fim de semana, Mohammed bin Salman, conhecido como MbS, mandou prender muitos membros da Casa Real sob a acusação de corrupção. Uma manobra ousada, que o jornal Al Riad, publicado na capital saudita, festejou como um passo decisivo para a modernização econômica e social do país. Para a publicação, a Arábia Saudita está no início de uma nova fase.

"O que está em jogo são princípios, como trabalho honesto, justiça e igualdade de direitos entre todos os cidadãos. Não deve mais haver diferença entre membros da família real e os outros cidadãos." No fim das contas, trata-se sobretudo de superar a dependência do petróleo e instaurar uma nova economia, baseada em inovação e criatividade. "Nela, a corrupção e o apadrinhamento não terão mais lugar. Com a sua decisão, o príncipe comprovou que ninguém está acima da lei."

Porém, é questionável se o principal interesse de Mohammed bin Salman é mesmo combater a corrupção. É também possível que, mesmo tendo as melhores cartas para a sucessão do pai, ele queira se precaver e eliminar possíveis concorrentes do caminho.

"Não há nenhuma garantia de que as regras da sucessão serão seguidas sem dificuldades", afirma a revista online Al-Monitor. "As recentes detenções mostram que a disputa é mais dura do que o rei e seu filho desejariam. O rei é responsável por uma campanha anticorrupção que dá a impressão de que ele quer sobretudo punir seus inimigos."

Mas essa estratégia não está livre de riscos, afirma o especialista Sameh Rashed, do Cairo. Segundo ele, é possível que uma parte da Casa Real tenha se unido para tentar prejudicar o príncipe herdeiro. "Eles não têm mais tantas opções para fazer isso como tinham antigamente, mas a política interna saudita é cheia de surpresas."

Reformas reais são pouco prováveis

Diante disso, o príncipe herdeiro apresenta os problemas externos que o país enfrenta de uma maneira que atenda aos próprios interesses. Por exemplo, ele destaca os riscos advindos do Irã para tentar unir a sociedade saudita em torno de si.

"Internamente, porém, ele vai continuar agindo com mão de ferro, também contra confissões como os xiitas, no leste da Arábia Saudita", diz Rashed.

Porém, o especialista avalia que também clérigos aliados serão alvos do príncipe herdeiro e deverão perder seu status privilegiado. Segundo Rashed, MbS age para aplainar o próprio caminho rumo ao trono e eliminar os obstáculos do caminho, e isso não deverá mudar.

E isso cria dúvidas de que ele esteja mesmo falando sério quando anuncia reformas sociais no país, apesar de elas serem urgentemente necessárias, comenta Sons.

"É necessário atrair investidores do exterior, fazer com que a Arábia Saudita se torne atraente para os negócios." E isso só é possível com uma mudança de imagem para o país. "Por isso, ele precisa se apresentar como reformista no campo econômico, mas também no social e no religioso, dizendo ao mundo 'veja, não somos tão isolados e conservadores como todos pensam'."

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