Por que as pessoas mentem tanto?

Ines Eisele (md)

Quase 60% dos alemães admitem que mentem pelo menos uma vez por dia. Segundo especialistas, faltar com a verdade é comportamento não só frequente como vital para a existência humana.Se todo mentiroso passasse pela mesma situação que Pinóquio, a maioria das pessoas provavelmente teria um nariz avantajado. Segundo especialistas, as pessoas mentem até 200 vezes por dia. O que parece uma cifra exagerada, na verdade não é, se forem levadas em conta situações corriqueiras, como aquela desculpa para se evitar um encontro indesejado ou quando alguém elogia a roupa nova de alguém, apesar de achar a peça de gosto duvidoso.

Mentiras são parte da vida cotidiana. E a maioria das pessoas mente por razões sociais. De acordo com uma pesquisa publicada em 2016, cerca de 60% dos alemães admitem que mentem pelo menos uma vez por dia. A sondagem indica que 49% mentem quando tentam encorajar os outros. E 37% afirmam que mentem para proteger amigos.

"Cortesia e tato muitas vezes desempenham um papel quando nos desviamos da verdade", diz Klaus Fiedler, professor de Psicologia Social na Universidade Ruprecht Karls, de Heidelberg.

Ele garante que mentir é, na maioria dos casos, algo que não está relacionado com egoísmo ou com má intensão, mas tem motivação social. Muitas vezes, é uma forma de evitar magoar o próximo, como quando alguém recebe um presente que não gosta e, mesmo assim, se esforça para abrir um amplo sorriso e agradecer pela gentileza.

Mentiras são necessárias à convivência humana. Até as crianças aprendem cedo a usar a artimanha. A diferença é que elas ainda não têm prática e muitas vezes são traídas pelos olhos, o pestanejar ou as orelhas vermelhas.

Já os adultos sabem como aumentar sua credibilidade ao mentir. Nas profissões onde é importante vender a si mesmo ou seu produto todos os dias, é mesmo vital saber torcer a verdade para obter um resultado mais favorável.

Transtorno de personalidade

Mas também há casos em que as mentiras são parte de um transtorno de personalidade mais amplo, como lembra o psicólogo austríaco Werner Stangl. "Por exemplo, no caso de pessoas que passam a vida desempenhando e acabam presas em uma rede de meias-verdades e mentirinhas".

Apesar disso, Fiedler não vê a mentira como algo, em si, negativo. "Há 20 anos que venho afirmando que devemos desistir de nossa hipocrisia e de nosso conceito moralista sobre a mentira. Com isso, não fazemos justiça à essência da mentira", afirma.

"Mas eu, pessoalmente me tornei cada vez mais um fanático da verdade nos últimos anos", pondera o psicólogo, garantindo que nunca conta mentiras para sua mulher, mesmo as mais inofensivas. "É desejável que preservemos os ideais de verdade e sinceridade, mas, por outro lado, devemos ser altamente seletivos quando lidamos com a verdade. Caso contrário tudo pode ir água abaixo."

Esta "abordagem altamente seletiva da verdade" não serve apenas para lidar com os outros, mas também para nos relacionarmos com nós mesmos. "Mentir para si mesmo torna a vida mais suportável", explica Werner Stangl, acrescentando que, para uma autoestima saudável e uma atitude positiva perante a vida, é até mesmo essencial que não sejamos implacavelmente honestos com nós mesmos todos os dias.

"Assim como no caso dos outros, nós também não gostamos de ouvir a dura realidade de nossa própria voz interior, como que somos culpados de algo ou infelizes em um aspecto de nossas vidas", frisa.

Fiedler ressalta que mentiras estão presentes em todas as culturas, embora em quantidades variáveis. "Superficialmente, por exemplo, a sociedade na região asiática é muito mais marcada por cortesia com hipocrisia. Mas quanto mais perto se olha, mais claro fica que as mentiras ocorrem de uma maneira diferente. Alguns mentem com relação a sentimentos, outros, mais na área comercial. Alguns mentem mais com palavras, outros, com linguagem corporal, como no caso de um sorriso forçado.





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