Zeitgeist: O culto a Xi

Alexandre Schossler

Presidente concentra poder como nenhum outro líder chinês desde Mao. Culto de personalidade é cada vez mais visível e afasta partido do princípio da "liderança coletiva$escape.getQuote().Xi Jinping, de 64 anos, escolhido pela revista The Economist o homem mais poderoso do mundo, é também o líder chinês que mais concentra poder desde Mao Tsé-tung, acumulando os cargos de chefe de Estado, comandante-em-chefe, secretário-geral do partido e membro principal do Comitê Permanente do Politbüro, para ficar só nos mais importantes.

O poder de Xi é tamanho e tão sem paralelo nos anos recentes que muitos analistas afirmam que, com essa situação, o Partido Comunista está se afastando do princípio da "liderança coletiva", criado por Deng Xiaoping justamente para evitar que uma pessoa concentrasse tanto poder como Mao Tsé-tung – e fizesse mau uso desse poder, como Mao com a Revolução Cultural.

Essa concentração de poder é visível no que muitos analistas chamam de o culto a Xi. A prática não é oficial, mas perfeitamente perceptível. Por exemplo na capa do Diário do Povo, o órgão de imprensa do Partido Comunista chinês. Ao longo dos anos, os novos membros do Comitê Permanente foram apresentados em pé de igualdade, dentro do espírito da liderança coletiva. Este ano, a capa trouxe uma enorme foto de Xi Jinping, e os demais membros, numa foto coletiva abaixo, quase não são visíveis.

A foto oficial do líder foi claramente retocada para que parecesse uma pintura, à semelhança dos antigos retratos de Mao. Ela pôde ser vista também na capa de vários outros jornais e revistas, até mesmo numa chamada China Sports News. E, em outdoors espalhados pela China e em souvenir de todos os tipos, as imagens de Xi e Mao aparecem lado a lado.

E não é só na capa do Diário do Povo e de outras publicações que Xi Jinping ganhou destaque. Durante o recente congresso do partido, o presidente foi oficialmente equiparado a Mao: o "pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova era" foi incluído nos estatutos do partido, a exemplo das ideias do velho timoneiro.

Às margens do congresso, uma exposição em Pequim lembrava os primeiros cinco anos de Xi Jinping à frente do país. O presidente estava no centro da mostra, com seções dedicadas aos seus feitos nas áreas de política externa, meio ambiente e combate à corrupção. Uma vitrine exibia a camiseta que o presidente Michel Temer entregou a Xi, autografada por Pelé.

Como observou o jornal The New York Times, o culto a Xi também se manifesta na disseminação da imagem do líder, que a propaganda do partido apresenta como paternalista e afetuoso. O presidente também é conhecido pelos chineses como Xi Dada, ou Tio Xi. Ele já fez visitas surpresas a lanchonetes, onde pagou a própria conta, e publicou um livro com suas experiências durante um período no campo, quando era jovem. A esposa de Xi, Peng Lyuan, é chamada de Mama Peng.

Tudo indica que Xi Jinping deverá determinar os rumos da China por muitos anos, bem mais até do que os próximos cinco do seu segundo mandato. Normalmente, a foto com os sete novos membros do Comitê Permanente do Politbüro sinaliza quem poderá ser o próximo presidente. Desta vez, porém, não havia nela nenhum possível sucessor.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que recebe no dia a dia.

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