Tuítes de Trump confundem Coreia do Norte e encurralam EUA

Michael Knigge (av)

Na escalada dos insultos, os líderes políticos em Washington e Pyongyang se superam mutuamente. No entanto mensagens belicosas nas redes sociais podem ter consequências drásticas no mundo real, alertam especialistas."Não é um defeito, é uma característica" poderia ser o slogan do atual governo dos Estados Unidos para descrever sua abordagem aparentemente contraditória em relação ao programa de armamento nuclear da Coreia do Norte, que avança rapidamente.

Tal abordagem culminou com o presidente Donald Trump ameaçando "destruir totalmente" o país asiático, e censurando publicamente seu secretário de Estado no Twitter, por buscar uma solução diplomática. Portanto, se a meta de Trump e equipe era semear confusão, mesmo entre especialistas em assuntos norte-coreanos, quanto à americana política para com Pyongyang, então ela está sendo bem-sucedida.

O diretor-fundador do programa de Estudos Coreanos da Universidade Stanford, Gi-Wook Shin, rechaça, porém, uma avaliação tão calculista: "Eu acho que [essa contradição] indica antes uma divisão dentro da administração Trump, do que uma bem planejada estratégia de 'policial bonzinho/policial malvado'."

"Ao mesmo tempo, pode-se argumentar que essas mensagens contraditórias se encaixam bem na um tanto paradoxal política para a Coreia do Norte do governo Trump: 'máxima pressão, engajamento máximo'", complementa Shin.

Consenso oficial, imprevisibilidade na prática

Michael Mazarr, especialista em assuntos coreanos do think tank Rand Corporation, sediado na Califórnia, partilha a perplexidade do colega: "Não sei bem como explicar a aceleração das ameaças militares nas últimas semanas, se são parte de uma estratégia consciente, ou se refletem a reação do presidente a passos específicos do avanço do programa nuclear norte-coreano."



É consenso básico que as principais autoridades de segurança nacional da Casa Branca – o chefe do Pentágono James Mattis, o secretário de Estado Rex Tillerson e o conselheiro para o setor, H.R. McMaster – estão de acordo no tocante à Coreia do Norte, e que seu posicionamento conjunto também se refletiu na revisão da política oficial para o país asiático, conduzida pelo governo no início de 2017.

Segundo autoridades americanas, esse estudo recomendava intensificar tanto as sanções contra Pyongyang como a pressão sobre China – a fim de que esta empregasse sua influência sobre o regime de Kim Jong-un –, mas sem prescrever opções militares. Por isso, a política postulada por Washington para com a Coreia do Norte costuma ser considerada antes continuação do que ruptura com a adotada pela administração Barack Obama.

No entanto, o que pareceria ser uma abordagem tradicional de política externa fica nebuloso com as repetidas mensagens belicosas de Donald Trump no Twitter contra a Coreia do Norte, muitas delas dirigidas pessoalmente ao líder nacional, Kim Jong-un. Como esta, de 1º de outubro de 2017:

"Ser legal com o Homem Foguete não deu certo por 25 anos, por que ia dar certo agora? Clintou fracassou, Bush fracassou e Obama fracassou. Eu não vou fracassar."



"Eles não sabem o que pensar do presidente dos EUA"

O também diretor do Centro de Pesquisa Ásia-Pacífico em Stanford, Gi-Wook Shin, vê aí um problema, já que as ofensivas de Trump contra o país no Twitter não conduzem à solução do impasse nuclear com o regime, sendo, antes, contraproducentes. "Atacar publicamente e pessoalmente o líder da nação não alcançará nada, especialmente num país como a Coreia do Norte, onde a família Kim é venerada como Deus."



Ao mesmo tempo em que efetivamente ofendem Kim Jong-un, os tuítes de Trump também vêm deixando as autoridades do país atônitas, na tentativa de interpretar as mensagens. "Uma coisa que temos visto é que os executivos norte-coreanos se mostram confusos, nas conversas com acadêmicos ocidentais", relata Michael Mazarr."

"Eles não sabem o que pensar do presidente dos Estados Unidos", prossegue o analista da Rand. "Não tenho visto nenhum sinal de estarem tão preocupados ao ponto de desistirem do arsenal nuclear deles, mas eles estão provavelmente mais inseguros quanto às intenções de um presidente americano do que em qualquer época desde 1953."

E isso, observam os especialistas, não é uma boa coisa. Pois, no pior dos casos, os arroubos de Trump nas redes sociais podem ser o estopim para uma sequência de hostilidades, teme Shin.

"Sim, os tuítes do presidente já desencadearam uma guerra psicológica com Kim Jong-un, com insultos cada vez mais grosseiros dos dois lados. Essa guerra de palavras é o que causou pânico e medo de uma guerra real entre o público em geral, tanto nos EUA como na Coreia do Sul."

Washington encurralado

Os numerosos assomos de Trump nesse contexto não representam um problema apenas para o governo Kim, mas também para Washington, uma vez que tendem a colocar a Casa Branca num beco sem saída.



Nos últimos meses leram-se, por exemplo, ameaças de "fogo e fúria" contra Pyongyang, ou a garantia de que "soluções militares estão agora totalmente a postos, armadas e carregadas, caso a Coreia do Norte aja com insensatez". Na opinião de Mazarr, contudo, "com o passar do tempo, o que elas realmente fazem é colocar em jogo a credibilidade dos EUA".

"Pois o presidente americano fez promessas e ameaças que devem ser cumpridas, se essa credibilidade precisa ser mantida. Nesse sentido, a tendência de opinião expressada em numerosos tuítes pode se transformar na base para hostilidades."

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