Opinião: Setor da saúde deve reagir a mudanças climáticas

David Pencheon (av)

Médicos de grandes hospitais europeus participam da COP23 para discutir o combate ao aquecimento global. Para o especialista David Pencheon, é hora de encarar as alterações do clima como uma questão de saúde pública.Os profissionais da saúde precisam estar na linha de frente quando se trata de encarar os efeitos da mudança climática em sua área de atuação. Eventos meteorológicos extremos, como furacões, tempestades, ondas de calor, enchentes, secas, frentes frias e poluição atmosférica causam, juntos, milhões de mortes a cada ano. Não há dúvida de que a mudança global do clima exacerba tais padrões meteorológicos e ameaça a estabilidade climática no longo prazo.

Contudo não são só essas manifestações extremas que afetam a saúde. A poluição atmosférica também está estreitamente ligada à mudança climática. A revista científica The Lancet estimou recentemente que as doenças causadas pela poluição acarretam 9 milhões de mortes por ano: isso representa mais do que aids, tuberculose e malária juntas e é uma advertência que não se pode ignorar.

Enquanto profissionais da saúde, ocupamos uma posição privilegiada na sociedade, como mediadores dignos de confiança, e estamos extremamente bem situados para frisar a conexão entre mudança climática e saúde. No passado, a comunicação efetiva pelos profissionais foi essencial para encarar diversas crises de saúde, em especial no caso do tabaco, HIV/aids e moléstias cardiovasculares.



Até o momento, contudo, pouco tem sido feito para identificar as mudanças climáticas como uma questão de saúde pública e mobilizar profissionais para combater esse problema global em nível local. É tanto uma oportunidade como responsabilidade dos profissionais da área assumir um papel de liderança para comunicar os efeitos da mudança do clima sobre a saúde.

Não devemos esquecer que o próprio setor de assistência de saúde é também um grande emissor de gases do efeito estufa. No processo de tratar pacientes e cuidar de comunidades, os hospitais e sistemas de assistência médica consomem grande volume de energia e recursos, em todos os continentes, contribuindo para a mudança climática e a poluição atmosférica.

Apenas nos Estados Unidos, calcula-se que a assistência de saúde seja responsável por 8% das emissões de gases causadores do efeito estufa. No Reino Unido, embora ainda haja um longo caminho a trilhar, já demos passos decisivos para reduzir a pegada de carbono do setor assistencial.

Com ajuda da National Sustainable Development Unit for Health and Social Care, entre 2007 e 2015 o sistema de saúde britânico já reduziu em 11% as suas emissões. Estamos provando que é possível mudar, e que isso não beneficia apenas a saúde ambiental e humana, mas também proporciona reduções de custos significativas.

O setor de saúde britânico está agora indo na direção de uma abordagem integrada para combater as emissões de CO2, como pilar dos desafios mais amplos do desenvolvimento sustentável e valor social, tendo os serviços de saúde como organizações-âncora nas comunidades locais.

Apoiamos fortemente o movimento global Health Care Without Harm e sua "Chamada à ação da assistência de saúde para a mudança climática". Esta apela à área médica para que ataque os seus próprios impactos climáticos e se prepare para as previstas condições meteorológicas extremas originárias das mudanças climáticas.

A "Chamada" já foi assinada por mais de 100 instituições de 29 países, representando os interesses de quase 10 mil hospitais e centros de saúde por todo o mundo. Assim, representa uma mensagem poderosa do setor sobre a necessidade de ação e de liderança por todas as partes do macrossistema.

As ambiciosas metas acordadas na cúpula do clima COP21, em Paris, exigirão que cada setor contribua, se a meta é limitar o aquecimento global. Como profissionais da área, temos obrigação de, em primeiro lugar, não prejudicar a saúde de nossas comunidades, nem do planeta. O setor assistencial possui o potencial persuasivo político e econômico, assim como a obrigação moral, de estar na vanguarda da liderança, quando se trata de mudança climática.

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