Dia decisivo para a política alemã

Para garantir seu quarto mandato, Angela Merkel tenta fechar aliança inédita entre conservadores, liberais e verdes e abrir caminho para formação de governo. Insucesso pode acabar acarretando em novas eleições.A política alemã tem um dia decisivo nesta quinta-feira (16/11), data fixada como limite pela chanceler federal Angela Merkel para que seu partido, os liberais e os verdes, após semanas de sondagens, decidam se realmente vão entrar em negociações formais para montar o próximo gabinete de governo.

Independentemente da direção em que aponte, o resultado das cerca de três semanas de conversas prévias é por si só inédito: se der certo, essa tríplice coalizão seria inédita na república alemã; se não vingar, o país pode estar diante, pela primeira vez, da necessidade de convocar novas eleições.

Merkel, de 63 anos, está tentando fechar uma aliança improvável de sua legenda, a União Democrata Cristã (CDU), e do seu partido-irmão da Baviera, a União Social Cristã (CSU), com o Partido Liberal Democrático (FDP) e o Partido Verde – uma coalizão que ainda não foi testada a nível nacional – para abrir caminho para o seu quarto mandato.

As legendas estão divididas, a própria Merkel, nesta quinta-feira, falou em "diferenças sérias". Há discordância sobretudo em relação à fixação de um teto para limitar a entrada de refugiados no país, questão que fez com que a chanceler federal perdesse apoio nas últimas eleições. Muito da campanha foi centrado na política de "portas abertas" da chanceler, que, desde 2015, permitiu a entrada de mais de um milhão de refugiados na Alemanha.

Caso um novo pleito ocorra, políticos tradicionais temem que o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) ganhe ainda mais terreno depois de ter conseguido entrar no Bundestag (Parlamento alemão) após as eleições de setembro. Fundado há menos de cinco anos, a AfD sacudiu a política do país ao adotar um discurso antimigração, tirar votos dos principais partidos e conseguir entrar no Legislativo.

Na quarta-feira, os negociadores tentavam ainda restringir suas diferenças sobre migração. Em jogo está um plano do CDU e CSU para limitar em 200 mil anuais o número de pessoas que poderiam entrar na Alemanha por questões humanitárias. Os verdes, porém, rejeitam esse teto. Outros pontos de discussão são a proteção do meio ambiente, transportes e política energética, que causam atritos entre os quatro partidos.

"Deve haver um limite", afirma Volker Bouffier, governador da CDU no estado de Hesse, em entrevista para a emissora pública de televisão alemã ARD. "Nós dizemos que 200 mil é um número razoável, se nós olharmos os últimos anos. Mas nós ainda não alcançamos nosso objetivo."

As legendas estão também em desacordo sobre o número de estrangeiros que pedem para se juntar a parentes que receberam refúgio na Alemanha. Antes das negociações nesta quarta-feira, ao ser indagado se os negociadores conseguiriam superar suas diferenças, Bouffier respondeu: "Eu estou confiante. Vamos ver."

Divisões entre conservadores

"Acreditamos que todas as partes envolvidas compreenderam a urgência para se chegar a um acordo até o Natal", afirma Dieter Kempf, presidente da Federação das Indústrias Alemãs (BDI). Segundo ele, é importante evitar um período mais longo de incerteza política, pois isso minaria a vontade das empresas investirem.

As negociações da coalizão são complicadas devido também à dinâmica dentro do bloco conservador formado por CDU e CSU. A CSU, que se preocupa em perder apoio nas eleições bávaras no próximo ano, é inflexível em relação à imigração – um risco para a chamada coalizão "Jamaica", uma alusão à semelhança entre as cores dos partidos CDU, FDP e Verde, e a bandeira do país caribenho.

O secretário-geral da CSU, Andreas Scheuer, afirmou que seu partido está comprometido, mas acrescentou que "está cada vez mais claro que 'Jamaica' não é uma viagem de lazer... E alguns membros do grupo da expedição ainda não ajustaram sua bússola corretamente".

Na quarta-feira, os negociadores discutiram também temas como União Europeia, finanças e energia. O negociador do FDP, Volker Wissing, questionou a estimativa do Ministério das Finanças de que o próximo governo terá cerca de 30 bilhões de euros disponíveis para medidas suplementares, argumentando que 40 bilhões de euros estarão disponíveis.

O FDP quer dar prioridade ao alívio de impostos. Wissing também sugeriu expandir o papel do Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, em inglês) – fundo de resgate da zona do euro – que alguns políticos querem transformar em um Fundo Monetário Europeu ainda mais poderoso.

Após o partido de Merkel vencer as eleições de 24 de setembro, a chanceler federal previu que a formação do governo poderia durar até o Natal. Depois de três semanas de saondagens, Merkel pretende que esta fase termine nesta quinta-feira, após cada partido aprovar a abertura de negociações formais.

FC/rtr/afp/lusa

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