Macron busca papel de mediador no Oriente Médio

Presidente da França tem se engajado na mediação da crise política no Líbano e em estreitar laços com antigos protetorados. Uma estratégia para aumentar a importância internacional francesa.O presidente da França, Emmanuel Macron, está buscando assumir o papel de mediador no Oriente Médio. Desde o começo do mês, ele se engaja na tentativa de desanuviar a crise política no Líbano e preservar a estabilidade regional, ao alavancar as relações comerciais francesas com rivais no Oriente Médio e estreitar laços históricos com antigos protetorados.

É um estratagema arriscado, mas Macron pode estar numa melhor posição política do que qualquer outro líder mundial para ter sucesso. Muito dependerá do que ocorrer quando o premiê libanês, Saad Hariri, chegar a Paris e se reunir com o presidente francês neste sábado – isto é, caso Hariri tenha permissão para deixar a Arábia Saudita, onde está desde sua inesperada renúncia, em 4 de novembro.

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Macron insiste que não está oferecendo "exílio", mas o retorno de Hariri ao Líbano pode ser complicado devido a tensões internas no país. Analistas dizem que a França, que Hariri visita frequentemente devido a laços familiares, pode ser um lugar seguro para aguardar o desenvolvimento da situação no Líbano.

O convite faz parte do que está se moldando numa estratégia mais ampla de Macron para reafirmar a influência francesa no Oriente Médio, enquanto os Estados Unidos sob o presidente Donald Trump são cada vez mais vistos como imprevisíveis e desvinculados.

Nesta sexta-feira (17/11), o gabinete de Macron disse que a estratégia da França é dialogar com todos os poderes da região e não tomar partidos. E isso é especialmente importante e delicado quando se trata do Líbano. A Arábia Saudita trava uma disputa pela influência no Oriente Médio com seu principal rival, o Irã – e ambos os países apoiam lados opostos no Líbano.

Hariri anunciou sua renúncia há duas semanas, a partir da Arábia Saudita, e citou preocupações sobre a intromissão do Irã e seu aliado libanês, o grupo militante xiita Hisbolá, em assuntos regionais. A renúncia foi vista como orquestrada pelos sauditas sunitas e aumentou os temores de que poderia arrastar o Líbano à batalha pela supremacia regional.

A França, entretanto, possui vínculos centenários com o Líbano e "um dever de cuidado em relação ao país, o que é uma parte profundamente arraigada da política externa francesa", afirma François Heisbourg, presidente do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

Hospedar Hariri na França "não oferece qualquer ideia de uma solução pacífica para o problema" no Líbano, segundo Heisbourg, mas "há alguma vantagem em tentar acalmar [...] um país que sequestra primeiros-ministros estrangeiros".

Desde que assumiu a presidência francesa, há seis meses, Macron – um pró-europeu que defende a globalização – tem procurado aumentar a importância internacional do país. A França, com uma das maiores redes diplomáticas do mundo, quer usar sua influência como membro do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto e como potência europeia.

Interesses econômicos

Depois de uma parada inesperada em Riad para conhecer o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman al-Saud, na semana passada, Macron discutiu a crise no Líbano com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e realizou esta semana uma enxurrada de telefonemas para possibilitar a chegada de Hariri a Paris. Ao mesmo tempo, Macron quer manter um bom relacionamento com as autoridades iranianas. Ele planeja visitar o Irã no início de 2018.

Os esforços de Macron lembram a tentativa diplomática adotada pelo ex-presidente francês Jacques Chirac durante a guerra de 2006 entre o Hisbolá e Israel. Mas, na época, considerou-se que Chirac estava favorecendo o lado apoiado pelos sauditas de Hariri, segundo Denis Bauchard, ex-diplomata e especialista em Oriente Médio no Instituto Francês de Relações Internacionais.

Chirac era amigo íntimo de Rafik Hariri (assassinado em 2005), pai de Saad Hariri – e a família Hariri emprestou seu apartamento parisiense por anos a Chirac depois que ele deixou a presidência, em 2007.

"Macron quer que a França desempenhe o papel de intermediário honesto", afirma Bauchard. "A França não pode substituir os Estados Unidos na região. Macron não tem a intenção ou os meios para fazer isso, mas ele pode tentar desempenhar um papel de mediador."

Mas, obviamente, há interesses econômicos. Empresas francesas estão retomando negócios no Irã e possuem acordos de defesa de vários bilhões de euros e vínculos econômicos com a Arábia Saudita e outros países do Golfo.

Em 2014, em particular, França e Arábia Saudita concordaram em fornecer ao Exército libanês 3 bilhões de euros em armas pagas por Riad. O acordo incomum incluiu a premissa de que instrutores franceses estejam envolvidos por dez anos para garantir que as armas não cheguem às forças do Hisbolá.

O Irã acusou, nesta sexta-feira, a França de "parcialidade" e afirmou que sua abordagem agrava as crises no Oriente Médio. Durante visita à Arábia Saudita, o chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian, havia dito que a França estava preocupada com as "tentações hegemônicas" de Teerã.

PV/ap/lusa

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