Milhares saem às ruas contra Mugabe no Zimbábue

Marchas em Harare e outras cidades ocorrem em clima de comemoração em antecipação à saída do presidente, no poder há 37 anos. País está sob controle dos militares, enquanto autoridades negociam afastamento pacífico.Milhares de pessoas saíram às ruas no Zimbábue neste sábado (18/11) em protesto contra o presidente Robert Mugabe, que pode estar diante de seus últimos dias no cargo após quase quatro décadas no poder. Ele foi posto sob prisão domiciliar pelos militares, que mantêm o controle do país.

Em clima de comemoração em antecipação à saída de Mugabe, os atos reuniram multidões na capital Harare e na segunda maior cidade, Bulawayo. Carros buzinavam, enquanto cidadãos erguiam bandeiras do país e faixas com mensagens como "Zimbábue não é uma empresa privada, Mugabe deve renunciar". Outros cartazes ainda diziam "Vai, general" e "Não à dinastia Mugabe".

Frank Mutsindikwa, um dos manifestantes presentes, relatou à agência de notícias Reuters que "chora lágrimas de alegria". "Esperei toda a minha vida por este dia. Finalmente livres. Estamos finalmente livres", declarou ele, apesar de a saída de Mugabe do poder ainda estar incerta.

As manifestações foram convocadas por mais de uma centena de organizações civis, além da união sindical e da influente associação de veteranos de guerra. Elas contam também com o apoio das Forças Armadas, que assumiram o controle do Zimbábue na quarta-feira passada.

Milhares de manifestantes expressaram seu apoio à intervenção militar contra Mugabe, um dos mais longevos chefes de Estado do mundo. Alguns cartazes traziam a foto do chefe das Forças Armadas, o general Constantino Chiwenga, referindo-se a ele como "a voz do povo".

As chamadas "marchas de solidariedade" ainda lançaram críticas à primeira-dama, Grace Mugabe, de 52 anos, que teria planos de seguir os passos de seu marido no mais alto cargo do Estado. "A liderança não se transmite sexualmente", dizia um cartaz, junto à foto de Grace.

A crise em torno de Mugabe, de 93 anos, eclodiu após semanas de agitação política depois que o chefe de Estado demitiu seu vice-presidente, Emmerson Mnangagwa, extremamente popular entre as Forças Armadas. Críticos afirmam que a medida visava abrir caminho para Grace suceder Mugabe na presidência.

Na noite entre terça e quarta-feira, o Exército interveio e tomou o controle do país. Desde então, o presidente está confinado em sua residência em Harare, tendo feito sua primeira aparição pública nesta sexta-feira, quando presidiu uma graduação numa universidade da capital.

Enquanto isso, uma série de negociações políticas sobre seu afastamento estão sendo realizadas. Nesta sexta-feira, o líder da associação de veteranos de guerra do Zimbábue – uma voz poderosa na política do país – disse que Mugabe deveria renunciar imediatamente.

"Os generais fizeram um trabalho fantástico. Está feito, está terminado", disse Christopher Mutsvangwa, em Harare. "Não há volta para Mugabe. Ele tem que sair." O líder oposicionista Morgan Tsvangirai também pleiteou a renúncia de Mugabe, bem como membros do próprio partido governista.

Neste sábado, enquanto milhares de zimbabuanos protestavam contra seu líder, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, afirmou que a região está empenhada em apoiar o "povo do Zimbábue", e se disse otimista de que a situação no país vizinho pode ser resolvida de forma amigável.

O comissário para a paz e a segurança da União Africana (UA), Smail Chergui, também afirmou, em entrevista à DW, que o órgão espera uma resolução pacífica.

"Acredito que, enquanto falamos, o Parlamento ainda está em vigor, o governo está trabalhando e não há sinal de violência. Esperamos que a SADC venha a ser bem-sucedida na neutralização das tensões", afirmou o comissário.

A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla em inglês) é uma organização intergovernamental com sede em Botswana que visa promover a cooperação política e de segurança entre 16 Estados do sul da África, incluindo Zimbábue e África do Sul.

Desde a intervenção, os militares negam se tratar de golpe e dizem que as ações têm o objetivo de "derrubar criminosos no entorno de Mugabe". A imprensa estatal publicou nesta sexta-feira um comunicado indicando que as conversações "prosseguem".

Mugabe é o chefe de Estado mais velho do mundo, mais longevo da África e governa o Zimbábue com uma mão dura há 37 anos – como presidente desde 1987 e primeiro-ministro de 1980 até 1987.

Embora seja fortemente criticado por violações de direitos humanos, para muitos ele é um herói da luta da independência do país contra o Reino Unido e um provedor de estabilidade, mesmo que a outrora próspera economia tenha se desintegrado sob suas políticas financeiras atuais.

EK/afp/ap/rtr/efe/lusa/dw

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