Negociações fracassam e futuro de Merkel se complica

Jean-Philip Struck

Liberais abandonam conversas para a formação de novo governo na Alemanha e diminuem as opções da chanceler, abrindo caminho para a possibilidade de novas eleições.As sondagens para a formação do novo governo da Alemanha fracassaram neste domingo (19/11) após o Partido Liberal Democrata (FDP, na sigla em alemão) anunciar que estava abandonando a mesa de negociações. Com o colapso das conversas, o futuro do quarto mandato da chanceler federal Angela Merkel se complicou.

Pouco antes da meia noite (horário da Alemanha), o chefe dos liberais, Christian Lindner, disse que "era melhor não governar do que governal mal". Ele citou diferenças irreconciliáveis entre quatro partes das negociações – o FDP, o Partido Verde, a União Democrata-Cristã (CDU) de Merkel e o braço bávaro desta, a CSU. "Nós não culpamos ninguém por se manter fiel a seus princípios. Mas nós também fizemos o mesmo. Nós defendemos reverter as tendências atuais, mas não conseguimos chegar a um acordo", disse Lindner.

Após as eleições federais que ocorreram no fim de setembro, os quatro partidos deram início a uma série de sondagens para chegar a um acordo preliminar que pudesse enfim dar início às negociações formais para a formação de uma coalizão. A possível formação foi apelidada de "Jamaica" pela imprensa, em referência às cores dos partidos que, quando combinadas, correspondem às da bandeira do país caribenho. Caso os quatro partidos se unissem, a base Merkel contaria com 393 dos 709 deputados do Parlamento. O FDP sozinho conta com 80 deputados.

Conflitos

Mas uma série de divergências acabou por complicar as conversas. Os temas que provocaram conflito envolviam desde a questão dos refugiados até medidas para preservar o meio ambiente. A CDU e a CSU, por exemplo, desejavam impor uma cota máxima de 200 mil refugiados que poderiam ser acolhidos anualmente no país. A medida tinha apoio dos liberais, mas o Partido Verde só aceitou concordar com ela caso os refugiados que já estão no país pudessem trazer suas famílias.

Nas últimas eleições, o tema dos refugiados dominou o debate político, se tornado uma questão tóxica entre o eleitorado. Entre 2015 e 2016, mais de um milhão de estrangeiros chegaram ao país. Mas essa não foi o único ponto de divergência. Os verdes também defendiam medidas radicais para cortar o consumo de carvão no país, o que provocou objeções dos outros partidos.

Horas antes do anúncio sobre o fracasso das negociações já era possível notar que as conversas finais, que ocorreram ao longo do domingo em Berlim, não estavam indo bem. A previsão inicial é que uma decisão seria anunciada às 18h.

Após Lindner abandonar as conversas, membros do Partido Verde criticaram a decisão. O deputado verde Reinhard Bütikofer disse que Lindner, o chefe dos liberais, escolheu "sua própria forma agitação populista em detrimento da responsabilidade política".

A chanceler federal Angela Merkel lamentou o colapso das negociações. Ela disse que seu partido acreditava que "o ritmo das conversas indicava que seria possível chegar a um acordo". Horst Seehofer, o chefe da CSU, disse que um acordo "estava ao alcance" pouco antes de os liberais abandonarem as conversas.

Um dos chefes do Partido Verde, Cem Özdemir, também ecoou Merkel. "A única combinação democrática possível foi infelizmente derrubada pelo FDP", disse.

As opções de Merkel

A grande derrotada da noite foi Angela Merkel. Com o fracasso da formação da coalizão "Jamaica" restam apenas três opções viáveis para a chanceler federal.

Ela pode voltar as atenções para o Partido Social Democrata (SPD), que recebeu 20,5% dos votos nas últimas eleições e assim conseguir maioria no Bundestag, o parlamento do país. Em setembro, a CDU/CSU recebeu 32,9% dos votos. O problema é que o SPD, que governou o país como parceiro de Merkel nos últimos quatro anos já disse que quer passar para a oposição.

Nestas eleições, o SPD teve seu pior resultado eleitoral desde o fim da República de Weimar (1919-1933) e esse último fracasso foi atribuído à associação com Merkel, que acabou por diluir o programa do partido e deixá-lo indistinguível dos conservadores. Neste domingo, o líder da sigla, Martin Schulz, voltou a reiterar que não deseja a continuação de uma coalizão com Merkel.

Dessa forma, vai restar à chanceler a opção de formar um governo de minoria, possivelmente só com os Verdes ou apenas com o FDP. O problema é que a Alemanha não está acostumada a governos desse tipo, e a falta de uma maioria no Parlamento pode eventualmente erodir o poder de um chanceler.

Como última e mais radical opção vai restar a Merkel pedir ao presidente do país, Frank-Walter Steinmeier, a dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições federais, torcendo para ampliar o número de cadeiras da sua própria sigla, o que dispensaria a necessidade de recorrer a tantos partidos. Seria uma medida inédita, já que o mecanismo nunca foi usado na Alemanha após o fim da Segunda Guerra Mundial apenas com o objetivo de contornar dificuldades para a formação de um novo governo.

Mas esta opção pode provocar dificuldades para a elite política, já que os grandes partidos alemães experimentaram um declínio nas últimas eleições. O SPD perdeu 5,2 pontos percentuais em relação às eleições de 2013. Já a CDU/CSU de Merkel perdeu 8,6 pontos percentuais. Uma rodada extra pode provocar uma fuga ainda maior do eleitorado.

Vários políticos tradicionais também temem que novas eleições possam beneficiar o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que conquistou 12,6% dos votos nas últimas eleições e conseguiu pela primeira vez ocupar cadeiras no Parlamento. Na última quinta-feira, a deputada Alice Weidel, uma das líderes da AfD, já havia defendido a realização de um novo pleito caso as negociações para um novo governo fracassassem.

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