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Filme aborda extremismo de direita na Alemanha

Joachim Kürten (ca)

22/11/2017 16h00

Em seu novo longa, diretor Fatih Akin transforma uma mulher pacata em alguém com sede de vingança, com o assassinato em série de turcos por neonazistas como pano de fundo.Para Fatih Akin, Em pedaços (Aus dem Nichts) é uma libertação. É novamente um filme emocional e emocionante, filmado e produzido com relativa rapidez, uma obra com a marca do diretor alemão de origem turca.

Mas é preciso uma visão em retrospecto para entender do que se trata o filme. Em setembro de 2014, o cineasta concorreu no Festival de Veneza com O corte (The cut). Aquela que foi até agora a obra mais elaborada de Akin acabou sendo um fracasso – entre o público do festival, entre a crítica e mais tarde também nas bilheterias.

Leia também: Opinião: Ré da NSU só quer salvar a própria pele

O corte lida com o drama dos armênios, com o genocídio que já provocou uma série de turbulências políticas e diplomáticas entre a Turquia e a Alemanha. Trata-se de um filme histórico, de grande alcance em sua abordagem narrativa, com um longo tempo de pré-produção, um filme detalhista, um épico.

Além disso, com uma mensagem. Mas não se trata necessariamente da especialidade de Akin. O diretor, que se tornou conhecido com histórias de vizinhança espirituosas e altamente dramáticas, desgastou-se aparentemente com a exaustiva produção.

Quando escreveu o roteiro de seu novo filme Em pedaços, ele estava "numa fase muito fatalista", afirmou Akin recentemente em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung: "Trabalhei por tanto tempo em O corte, por volta de cinco anos. E diria que perdi o fio de meada."

O diretor afirmou ter tido simplesmente tempo demais para o roteiro e a produção, para a filmagem, para pensar nos pormenores: "Quando se presta atenção demais nessas coisas, esquece-se um pouco do drama que se quer narrar, da vida interior do protagonista."

Envolvimento emocional

"Em pedaços foi então o filme mais rápido que já fiz", confessou o diretor. Ele treinou isso também com as filmagens de Tschick. Esse drama juvenil baseado num best-seller estreou no ano passado; Akin assumiu a direção após o diretor previsto originalmente ter desistido das filmagens, que tiveram de ser realizadas às pressas.

Primeiro, a longa e aparentemente frustrante produção de O corte, depois a rapidez de Tschick – para os trabalhos de Em pedaços, essas experiências foram muito importantes. Akin é um especialista em "pequenas" histórias de pessoas simples, cheias de drama e emoção. Ele não é um diretor para épicos históricos.

Em pedaços é novamente um filme que enche a tela de emoções – da mesma forma que aconteceu há muitos anos com Contra a parede, o filme com o qual o cineasta conquistou o público do Festival de Cinema de Berlim em 2004.

É claro, houve ainda uma segunda razão para o sucesso de Em pedaços. A consternação e a raiva de Fatih Akin com os assassinatos cometidos pelo grupo de extrema direita NSU e, principalmente, a forma como a polícia e o Ministério Público agiram inicialmente diante desses crimes.

A NSU é considerada responsável pela morte de de dez pessoas, nove delas comerciantes de origem turca ou grega e uma policial, entre 2000 e 2006.

O caso revelou erros graves cometidos pela polícia e pelo serviço secreto interno da Alemanha, que por anos descartaram a possibilidade de que as mortes dos comerciantes tivessem uma motivação racista e fossem ligada à cena de extrema direita do país.

A princípio, foram investigados os parentes e o ambiente familiar. As vítimas foram transformadas em criminosos no estágio inicial das investigações - e é esse cenário que serve como pano de fundo para a história contada por Fatih Akin.



"Isso também poderia me atingir"

À agência de notícias DPA, o diretor disse ter achado escandaloso "que os investigadores partiram do princípio que as vítimas e seus familiares teriam feito algo de errado – simplesmente devido à sua origem."

Para o diretor, isso foi algo muito pessoal. Afinal, Fatih Akih também é um chamado "alemão com histórico migratório": "Como alguém de origem turca, estrangeira, eu tive (...) a sensação que isso me tocava pessoalmente. Isso também poderia ter me atingido."

Inicialmente, Akin havia planejado Em pedaços como um drama legal. No entanto, o seu coautor, Hark Bohm, criticou duramente o roteiro, afirmou Akin ao jornal Süddeutsche Zeitung. Ele então reescreveu o script. O filme é agora composto de três partes.

Primeiramente, os espectadores veem o atentado contra o marido da protagonista, estrelada por Diane Kruger. Também o filho do casal é morto no ataque. Então Em pedaços se torna um drama legal. Na parte final, o longa se desenvolve numa história de vingança com fortes elementos de suspense.

Por sua atuação corajosa como uma mulher inicialmente atordoada com a morte do filho e do marido por um ataque covarde e que depois se transforma em alguém com sede de vingança, Diana Kruger ganhou em Cannes o prêmio de melhor atriz.

Para Diana Kruger, Em pedaços também é possivelmente uma libertação. A atriz nascida na Alemanha nunca havia atuado num filme alemão no seu país de origem e era conhecida entre os críticos antes por seus papéis leves. Com sua fulminante atuação no novo filme de Fatih Akin, ela convenceu agora todos – para alegria também de seu diretor.

Escolhido para representar a Alemanha no Oscar de filme estrangeiro, Em pedaços foi premiado com o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro – no Brasil, o lançamento está previsto para fevereiro de 2018.

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