Bibliothek: Hubert Fichte no Brasil

Ricardo Domeneck

Num momento em que no país se atacam movimentos pelos direitos dos homossexuais e religiões de matriz africana, obra de alemão homossexual e interessado pelo candomblé pode ser um ponto de partida para debates oportunos.Após as comemorações do cinquentenário de sua famosa leitura no Star Club de Hamburgo em 1966 – considerada o início da literatura pop alemã, Hubert Fichte (1935-1986) parece chegar de vez ao centro das atenções literárias do seu país. Há anos uma figura cultuada por um grupo de iniciados mas obscura para o grande público, sua estrela parece subir. A Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo) anunciou um projeto ambicioso e internacional dedicado ao autor, com um interesse especial para os falantes da língua portuguesa, pois dedica-se ao trabalho do autor em Lisboa, Salvador e Rio de Janeiro, assim como Santiago do Chile, Dakar e Nova York.

Chamado "Hubert Fichte: Amor e Etnologia", sua página tem como línguas oficiais o alemão, o inglês e o português. Já se pode ler nela, por exemplo, um artigo de Diedrich Diederichsen em tradução para a língua portuguesa, intitulado "Sexualidade, tortura, bicontinentalidade, resistência, teoria e heurística política na obra Geschichte der Empfindlichkeit (História da sensibilidade) de Hubert Fichte".

Com sua etapa lisboeta já encerrada, o projeto dedica-se neste momento à presença do alemão em Salvador, Bahia. Para a ocasião, está sendo lançado nesta terça-feira (28/11), em São Paulo, o livro Explosão: Romance da etnologia (São Paulo: Editora Hedra, 2017), no Instituto Goethe (Rua Lisboa, 974), com apresentações de Negro Leo e Linn da Quebrada. A entrada é gratuita. A próxima etapa vai se concentrar em sua presença no Rio de Janeiro.

Trata-se de um momento propício para essa nova chegada de Hubert Fichte ao Brasil em forma de livro. Explosão: Romance da etnologia é considerado uma virada no trabalho literário do alemão, e o Brasil ocupa um papel central nesse processo. Se o Brasil foi importante para Fichte, é hora de o alemão se tornar mais importante para o Brasil.

Num momento em que políticos, líderes religiosos e organizações conservadoras atacam tanto os movimentos pelos direitos dos homossexuais quanto os praticantes das religiões de matriz africana, o trabalho deste alemão homossexual e tão interessado pelo candomblé pode ser um ponto de partida extra e potente para nossos debates. Esperamos que o projeto estimule o lançamento de novas traduções no Brasil, assim como de livros há muito tempo esgotados, como seu Ensaio sobre a puberdade, publicado pela Editora Brasiliense na década de 80.

Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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