África, um continente de líderes idosos

Daniel Pelz (md)

Em boa parte dos países africanos, gerações mais jovens continuam sem chances de ter voz ativa na política. Em 2018, eleições serão realizadas no Zimbábue, Camarões e na Guiné, mas uma renovação está longe de ocorrer.Camarões, Zimbábue e Guiné têm eleições agendadas para 2018, mas parece que os líderes dos países africanos não estão pensando em aposentadoria. O presidente camaronês, Paul Biya, tem 84 anos, e o guineense, Alpha Conde, quase 80. Aos 75 anos, o novo chefe de Estado do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, ainda é o mais jovem do grupo.

"Os países africanos têm a maior diferença entre a idade de seus líderes e a de sua juventude, e não parece haver nenhuma transformação importante para transferir a liderança a uma geração mais nova no curto prazo", afirma Zachariah Mampilly, professor de estudos africanos no Vassar College, nos Estados Unidos.

O descontentamento é generalizado entre os jovens da África. "Estamos sendo governados por líderes senis", diz a ativista zimbabuense Linda Masarire. Com 35 anos, ela já lutou contra o regime autoritário do ex-presidente Robert Mugabe, e não está nada impressionada com o sucessor dele, Mnangagwa.

Masarire acredita que os antigos políticos ignoram as necessidades dos jovens cidadãos. "Temos gente de 35, 37 e 40 anos que nunca trabalhou na vida, que não tem segurança social. Muitos se viciam em drogas por não terem esperança nem futuro."

O Zimbábue não é o único lugar com uma perspectiva sombria para a nova geração africana: 200 milhões no continente têm entre 15 e 24 anos de idade, e eles representam 60% dos desempregados da África. Muitos dos que têm emprego sequer conseguem pagar as contas com seus salários.

Partido para os jovens

Masarire não está mais disposta a aceitar a situação. Nas eleições parlamentares do Zimbábue, programadas para setembro de 2018, ela pretende concorrer como candidata independente. Ao lado de gente de mentalidade semelhante, ela planeja fundar um partido para a geração jovem. No entanto, muitos jovens zimbabuenses têm medo do envolvimento político, seja no partido governante ou na oposição.

"Há muita violência em nossos partidos políticos, não importa se é o partido do poder ou da oposição. Muitas mulheres jovens não conseguem lidar com isso. Há muito assédio e coisas do tipo. No fim das contas, os jovens não têm chance de assumir postos altos em estruturas de decisão política ou governamentais no Zimbábue", diz Masarire.

Job Shipulululo, da Namíbia, também teve experiências ruins. O cientista político de 30 anos foi membro do conselho da ala jovem do partido governista. Hoje, ele e sua organização Affirmative Reposition lutam contra a pobreza e a corrupção. Só com uma decisão judicial ele conseguiu permanecer membro de seu partido.

"Quando os jovens se sobressaem com ideias diferentes, os outros membros do partido perguntam 'onde você estava enquanto lutávamos pela independência?'. Eles pedem suas credenciais na luta independentemente do seu nível de educação, da sua transparência, do que você queira fazer", reclama.

Cada vez mais protestos

Aparentemente, muitos jovens da África não acreditam mais na política partidária. De acordo com uma pesquisa realizada pela rede de pesquisas pan-africana Afrobarometer, pouco menos de 65% dos africanos entre 18 e 35 anos votaram nas últimas eleições em seu país.

"Acho que os jovens sentem que a urna é insuficiente, e eles têm bons motivos para se sentirem desiludidos, mas isso não significa que estão apáticos, significa que procuram meios alternativos para fazer suas vozes serem ouvidas, e aí o protesto se torna um mecanismo para esse fim", diz Mampilly.

Em 2015 e 2016, protestos em larga escala foram realizados em quase metade dos países da África. No Zimbábue e República Democrática do Congo, jovens se manifestaram repetidamente contra presidentes impopulares. No Senegal e em Burkina Faso, os manifestantes conseguiram afastar líderes autoritários. Mas tirando essas nações, os protestos raramente são bem-sucedidos.

"O grande risco é que você não pode prever como os protestos vão se desenrolar. E quando esses indivíduos jovens e talentosos se dirigem às ruas, é doloroso observá-los se confrontando com forças militares, na maioria dos casos, muito mais poderosas ", diz Mampilly.

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