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Opinião: Não há dois pesos e duas medidas para o antissemitismo

Kersten Knipp (rk)

03/01/2018 16h34

Protestos contra Israel em Berlim iniciaram um debate na Alemanha: como lidar com o antissemitismo muçulmano? Para o jornalista Kersten Knipp, da mesma forma que se lida com o alemão.Pelo que se sabe até o momento, é verdade: parte da imprensa foi injusta com os manifestantes que se reuniram no início de dezembro em Berlim para protestar contra a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

A reiterada acusação, publicada também pela DW, de que essas pessoas teriam gritado "morte aos judeus" não é verdadeira. Não se encontrou ninguém que pudesse testemunhar ter ouvido essa declaração. O primeiro a chamar a atenção para isso foi o meu colega Armin Langer.

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Porém, é possível ver cenas perturbadoras em vídeos dos protestos – por exemplo o do dia 8 de dezembro no Berliner Platz. "Israel, assassino de crianças", entoava grande parte das pessoas. Também se ouvia a frase "maut li Israil", ou "morte a Israel". Além disso, alguns manifestantes queimaram um lençol pintado com uma estrela de Davi. Segundo relatos da Rias, a Central de Pesquisa e Informação sobre Antissemitismo, também foi queimada uma bandeira de Israel.

Essas cenas revelam convicções antissemitas? Meu colega Langer prefere não tirar essa conclusão, pelo menos não de forma generalizada. Ele argumenta que queimar uma bandeira improvisada de Israel é um ato que, "em si, não é antissemita. A bandeira israelense não representa os judeus, mas os israelenses".

Assim, poderia-se concluir que o conflito deixa o plano antissemita e passa para o político. Langer escreve que, mesmo assim, a queima da bandeira é condenável "porque trata os israelenses de forma homogênea e os responsabiliza pela decisão de Trump".

É possível enxergar o assunto sob essa perspectiva, obrigatoriamente repreendendo os manifestantes por não terem tido uma atitude suficientemente diferenciada. Mas é questionável se isso basta para encerrar o assunto, pois Israel se entende explicitamente como Estado judeu, ainda que 20% de sua população seja árabe. Assim, a queima da bandeira se volta contra um país explicitamente judeu e contra a sua população, percebida como judia.

Além disso, os manifestantes deixaram claro que a discussão é mais do que apenas política quando gritaram, em coro, "Allahu Akbar", "Deus é grande" em árabe. Em seguida, recitaram os primeiros versos do Shahada, a profissão de fé muçulmana: "Não existe outro Deus além de Deus, e Maomé é seu profeta". No mais tardar aí a manifestação perdeu seu caráter político, e motivações políticas se uniram às religiosas, e as palavras de ordem assumiram, além de um caráter antissionista, também um caráter antissemita.

Sem dúvida, e essa também é uma observação do meu colega Langer, o antissemitismo é, em grande parte, ainda que não exclusivamente, uma criação europeia. Langer cita Benjamin Steinitz, do Rias, dizendo que o antissemitismo é "parte da história cultural europeia, especialmente da dos alemães".

Meu colega não comenta explicitamente essa citação. Como ela deve ser entendida? Talvez assim: o antissemitismo islâmico vale menos que o europeu (e especialmente o alemão) porque aquele se orienta por este ou surgiu deste? Langer deixa isso em aberto.

Um outro colega, Stefan Buchen, argumenta nessa direção no site Qantara, da DW. Buchen aponta para as motivações antissemitas de alguns atores políticos do Oriente Médio, como a Irmandade Muçulmana ou partido Baath, e também para a declaração do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em dezembro passado: "Israel é um país que se alimenta de sangue".

Ao mesmo tempo, Buchen desconfia da crítica ao antissemitismo muçulmano, especialmente na Alemanha. Seu argumento: "Se os alemães podem apontar com o dedo para outros, porque esses outros são 'antissemitas', então a mensagem subliminar é: 'nós não somos'". Para Buchen, essa reação "é a – talvez última – etapa do autoperdão".

Que conclusões tirar dessa imputação? De que é menos ruim quando muçulmanos queimam bandeiras de Israel e gritam "morte a Israel" do que quando alemães de extrema direita o fazem? Deve-se então manter um silêncio elegante? Deveríamos até – para aumentar a polêmica – aplaudir aglomerações como a de Berlim porque os manifestantes e seu antissemitismo chegaram ao coração da Europa e da Alemanha?

De qualquer maneira depreende-se de Buchen que cidadãos alemães que criticam o antissemitismo de alguns muçulmanos devem estar se sentindo felizes por dentro: "Agora finalmente dá para transferir a mácula para outros", escreve.

A conclusão de que a crítica do antissemitismo muçulmano tenha principalmente uma função de alívio da própria culpa na Alemanha, devido à história nacional, leva diretamente a um fatalismo político. Seguir essa argumentação significaria, em última instância, calar-se elegantemente diante dessa variante do antissemitismo. As consequências podem ser lidas no relatório sobre antissemitismo do Bundestag.

Mais uma coisa: deve-se supor que quem migra para um país tenha razões sérias e complexas para isso. Ele ou ela conhece o presente desse país e também o seu passado. Em relação à Alemanha, isso quer dizer que ela ou ele também precisa saber lidar com o Holocausto, já que este faz parte da história do país. Quem, portanto, se decide pela Alemanha como país de destino, decide, contanto que tenha responsabilidade cívica, abraçar esse debate.

É uma discussão que acontece desde o fim da Segunda Guerra Mundial: nas duas primeiras décadas, de forma relutante, hesitante e precária. Depois, de maneira cada vez mais decidida e marcada pela vontade de passar a limpo.

A Alemanha criou sua identidade nacional a partir do Holocausto e do dele resultante "nunca mais". Quem recusa essa identidade deve contar com críticas. Seja alemão, seja imigrante.