O presidente francês, Macron, tomou lugar de Merkel na liderança da Europa?

Christoph Hasselbach (av)

  • Geert Vanden Wijngaert/AP Photo

O mundo estava acostumado a ver a chanceler federal alemã como "Mrs. Europa", mas pouco a pouco o presidente da França vai assumindo a liderança do bloco europeu. Parceria, no entanto, ainda deve ser necessária.

Durante anos Angela Merkel ditou o tom na Europa, ninguém colocava isso em questão. Em seguida à vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, alguns jornais de língua inglesa chegaram a chamá-la de "líder do mundo livre".

Foi assim até alguns meses atrás, pois desde as eleições legislativas na Alemanha, em setembro, Merkel não teve apenas que aceitar a acentuada perda de popularidade de seu partido, a União Democrata Cristã (CDU). Atuando agora apenas em caráter interino, a chanceler federal ainda não conseguiu constituir o novo governo. Acabaram-se seus tempos de "Mrs. Europa".

Paralelamente, subia a estrela de Emmanuel Macron. O jovem e carismático francês saiu vencedor do pleito presidencial, enfrentando a candidata populista de direita Marine Le Pen. E aí realizou a façanha de reformar o mercado de trabalho da França, apesar de enorme resistência.

De lá para cá, os dados conjunturais positivos completaram o trabalho: seus índices de popularidade, inicialmente em queda, voltam a subir.

Quando chegou o 40º aniversário de Macron, em 21 de dezembro, a maioria dos franceses afirmava que ele é "um bom presidente". Enquanto a oposição o acusava de ter "os ares de um Rei Sol", durante sua campanha ele prometeu à nação, sem a menor modéstia, uma "presidência digna de Júpiter", caso vencesse. Todo o país, que há muito duvidava de si, parece estar de novo mais autoconfiante com Macron.

Estilos e metas diferentes

Até onde a política interna permite, Macron domina também soberano o palco político internacional. Após um esplendoroso jantar com Trump na Torre Eiffel e uma recepção para o presidente russo, Vladimir Putin, no Palácio de Versalhes, seguiram-se a Conferência do Clima em Paris, iniciativas para a política relativa à África, e agora a visita do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

"Ele voltou a representar com bastante força o papel tradicional da diplomacia francesa, a qual se engaja em nível mundial e parte do princípio de que os assuntos de todo o mundo dizem respeito à França, e de que também ela deve participar deles", analisa Stefan Seidendorf, vice-diretor do Instituto Franco-Alemão em Ludwigsburg. 

E acrescenta: em sua nova linha de política externa, Macron jamais esquece que "ele só tem peso se se apresentar como europeu".

Entretanto, em certos pontos Macron se distancia nitidamente de sua desejada parceira europeia Merkel. Tomando Erdogan como exemplo: enquanto na campanha eleitoral de setembro a chefe de governo alemã defendia a suspensão das negociações com Ancara para filiação à União Europeia, por violações dos direitos humanos, Macron denomina a Turquia "parceira imprescindível". No momento, seria difícil imaginar Erdogan visitando Berlim.

Também a forma como Macron lida com parceiros nada fáceis é totalmente diversa. Embora procure periodicamente contato com Trump, Putin ou Erdogan, Merkel se mantém demonstrativamente objetiva e guarda grande distância ao cumprir o protocolo.

Macron tenta ou impressioná-los com grandes ostentações ou se comporta de maneira quase íntima. Um aperto de mão com Trump acabou quase se transformando numa rusga, pois Macron não queria mais soltar a mão do homólogo americano. E aí ele exigiu de Trump, espirituoso: "Make the planet great again" ("Faça o planeta grandioso novamente", em alusão ao slogan de campanha de Trump "Make America great again").

Adeus "Mrs. Europa", alô "próximo líder"

A revista americana Time, que, não muito tempo atrás, apelidou Merkel de "Mrs. Europa", agora define Macron como "o próximo líder da Europa". Para Seidendorf, no entanto, é sempre algo negativo uma personalidade ou um país se colocar no topo da União Europeia.

"Há sempre o perigo de, quando um país tem que assumir sozinho esse papel de liderança, os outros só o seguirem contra a vontade ou até se recusarem; e de que, no fundo, acabe se fazendo apenas política de interesses nacionais, em vez de europeia." Por isso, seria bom, tanto para Macron como para Merkel, que ambos desempenhassem o papel juntos.

Segundo suas próprias palavras, o chefe de Estado francês não tem a menor pretensão a um papel solo, tendo afirmado que quer renovar a União Europeia em conjunto com a Alemanha. No entanto, ele continua esperando resposta às ideias dele para a política do bloco. Estas incluem, por exemplo, um ministro de Finanças e um orçamento conjunto para a zona do euro.

Merkel se mostra reservada, embora, em princípio, aberta às propostas. Contudo, na União Democrata Cristã e na Social Cristã (CDU/CSU) há grandes ressalvas. A vice-presidente da CDU, Julia Klöckner, expressou recentemente qual pensa ser o verdadeiro motivo por trás das iniciativas de Macron: "Somos contra a comunidade assumir dívidas de outros países. Devemos isso a nossos contribuintes."

Claire Demesmay, especialista em assuntos franceses do Conselho Alemão de Política Externa (DGAP), confirma haver na Alemanha – e não só na CDU/CSU e no Partido Liberal Democrático (FDP) – "uma impressão amplamente difundida" de que o país vai pagar pela França.

No momento, porém, ainda não é hora de tratar de questões individuais dessa ordem. Enquanto Merkel não formar um novo governo, ela não tem como fazer quaisquer afirmativas para Macron, e assim deixa o campo diplomático a cargo dele.

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