"Minha mãe disse que preciso ir para Europa"

Ilham Talbi (rk)

De todos os cantos do Marrocos, crianças chegam diariamente à cidade portuária de Nador. Pedem esmola, dormem ao relento, enviadas pelos próprios pais. Elas têm o mesmo objetivo: a perigosa travessia para a Europa.Sentado na calçada, Mohammed está completamente exausto. Dali, observa os clientes de um restaurante comendo uma refeição quente. Seu pequeno corpo treme de frio. Mas ele esfrega os olhos inchados e continua esperando por uma oportunidade de pular em cima de um dos caminhões que passa na estrada com destino à Europa, para passar despercebido pelos controles da alfândega.

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Cenas como essa são comuns em Nador. De todos os cantos do Marrocos, crianças chegam à cidade portuária, cerca de 400 quilômetros a leste de Tânger, junto ao Estreito de Gibraltar. Todas têm o mesmo objetivo: a perigosa travessia para a Europa.

O que as impulsiona a iniciar uma aventura que pode acabar em morte? E como é possível elas não se intimidarem nem depois de viverem experiências terríveis enquanto esperam para fazer a travessia?

Mohammed acabou de completar 12 anos. Vem do oásis Imilchil, no coração da cordilheira do Atlas. Deixou seu vilarejo natal por desejo da mãe, que quer que ele vá à Europa. Comunica-se na língua berbere local, à qual mescla algumas palavras em árabe.

"Ela [minha mãe] disse que eu só precisava vir a Nador e que, aqui, eu conseguiria dar um jeito de achar alguma porta para a Europa", lembra.

O próprio Mohammed também acreditou que alcançaria a outra margem do Mar Mediterrâneo sem contratempos. Mas já faz quatro meses que ele passa as noites na rua, ao relento. "Durante esse tempo, meus olhos ficaram inflamados porque eu durmo bem ao lado de contêineres de lixo."

"Não me importo com a morte"

Mas Mohammed e outras crianças ainda não conseguiram alcançar o porto de Nador. Para chegar lá, pedem esmola nos semáforos da cidade. Assim, esperam juntar dinheiro para pagar o transporte para o porto vizinho, Beni Ansar, diretamente na fronteira com o enclave espanhol de Melilla. A partir dessa ponta de terra no norte da África, querem finalmente realizar o sonho da travessia para a Europa.

A área em torno do porto de Beni Ansar é um ponto de referência para crianças que querem arriscar a viagem pelo Mar Mediterrâneo. Ali, pegam carona nos caminhões que têm a Europa como destino. Quando se penduram nos veículos, arriscam a vida. Muitas não pensam que poderiam cair entre as rodas.

Hamza, de 13 anos, diz que a morte não o intimida. Ele vem de Khenifra, no centro do Marrocos, e está determinado a tentar a viagem à Europa até conseguir: "Eu não me importo se eu morrer. Eu quero ir à Europa, porque lá vão cuidar de mim. Lá, vou achar proteção e apoio", afirma. Mas ser atropelado não é o único perigo para o pré-adolescente.

Agressões sexuais

Da cidade de Zakura, no sudeste do Marrocos, um menino de 14 anos chama a si mesmo de "Amin". Ele não quer revelar seu verdadeiro nome. Há dois anos, espera conseguir atravessar para a Europa. À DW, relata episódios chocantes de violência na rua – o tom de voz é tão baixo que mal dá para compreender.

"Durante a minha primeira noite aqui, fui vítima de agressões físicas e sexuais", conta. Como outras crianças que relatam ataques parecidos, ele não quer dar maiores detalhes. Para esquecer o acontecido, muitas das crianças usam drogas, diz Amin: "Eu mesmo, que era um garoto que sonhava com a viagem à Europa, me transformei num viciado sem teto", define.

Quando chega a noite, dezenas de crianças voltam à rua onde costumam dormir. Em seus rostos, é visível a decepção, resultado de mais um dia no qual seus esforços foram em vão. Para proteger uns aos outros, garotos e garotas formam pequenos grupos divididos pelos respectivos locais de origem.

Vida miserável

Aziz Katuf, secretário geral da Associação marroquina para Direitos Humanos da região de Nador, diz que há mais de 300 crianças na cidade tentando chegar à Europa. A maior parte delas vive nas ruas, mas algumas teriam conseguido alugar quartos num bairro na periferia. Aziz Katuf soou o alarme. Por não terem acesso a tratamentos de saúde, doenças estariam se propagando entre as crianças:

"Elas vivem daquilo que pessoas amáveis da região dão a elas. Elas também contam com a ajuda de algumas iniciativas que distribuem roupas e cobertores e dão comida quente às crianças. Também há campanhas para transmitir um pouco de educação a elas ou, simplesmente, ouvir seus relatos", diz.

Outra iniciativa tenta reintegrar as crianças às suas famílias e preservá-las da vida nas ruas, diz Abdel Rahim Mubaraki, representante da Iniciativa Nacional de Cooperação em Nador. Até agora, 25 crianças foram incluídas no projeto. Mubaraki explica que as ações também organizam campanhas para corrigir as ideias que as famílias têm sobre a viagem à Europa. O delegado diz que é preciso sensibilizá-las para os riscos corridos pelas crianças.

"Essas crianças tiveram grande êxito", avalia Mubaraki. "É que, apesar de apenas terem percorrido parte do caminho, vão desencadear mudanças positivas e levar muitas outras crianças a se distanciarem novamente da ideia de uma viagem à Europa."

Por outro lado, se a notícia de uma criança bem-sucedida em sua empreitada se espalhar, outras voltarão a ter a certeza ilusória de que poderão, em algum momento, ter sucesso na travessia para a Europa.

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