Opinião: 2018 é o ano das mulheres

Susanne Lenz-Gleissner (as)

Debate levantado pelo #MeToo nos acordou para uma realidade que havíamos reprimido. Agora estamos despertas e atentas na luta contra o sexismo e a repressão das mulheres.Dois chauvinistas incontroláveis me despertaram: Donald Trump, com sua declaração de bastidores "pegá-las pela buceta, você pode fazer qualquer coisa", e o produtor de Hollywood Harry Weinstein, que, na condição de rei do teste do sofá, reacenderam o debate #MeToo.

De repente não havia mais como não ver: sexismo escancarado e desprezo inescrupuloso pelas mulheres continuam sendo padrões de comportamento também no mundo ocidental. Eu havia reprimido isso, por muitos anos, assim como muitas outras mulheres. Nós havíamos nos arranjado com a situação. Logo nós que, no passado, havíamos sido tão encorajadas pelo movimento feminista, tão furiosas contra os machistas que nos assediavam sem qualquer pudor, tão determinadas contra os clichês de gênero que nos diminuíam.

"Por que devo cumprir meus deveres como mulher? Para quem? Para ti? Para mim? Eu não tenho vontade de cumprir meus deveres. Nem para ti. Nem para mim. Eu não tenho deveres."

Com sua canção Unbeschreiblich weiblich (indescritivelmente feminina), Nina Hagen expressou à perfeição o que eu sentia em 1978. Eu tinha 16 anos e estava elétrica. Jamais esquecerei a lendária apresentação ao vivo de Patti Smith no programa de televisão Rockpalast, um ano depois: ali estava uma bandleader à vontade, de terno e botas, que apresentava suas canções rebeldes com autoconfiança, que gritava, sussurrava, murmurava no microfone. Uma mulher que não tinha medo de se expor, de simplesmente ser ela mesma: crua, verdadeira, selvagem. Hagen e Smith: duas mulheres que mudaram radicalmente a imagem das mulheres na Alemanha no fim dos anos 1970. Uma Alemanha na qual as mulheres, ainda em 1977, precisavam da autorização do marido se quisessem trabalhar.

"Sisters are doing it for themselves, standin' on their own two feet, and ringing on their own bells": este vigoroso hino de Annie Lennox e Aretha Franklin era o nosso credo nos anos 1980. ["Irmãs estão fazendo isso por si mesmas, andando com os próprios pés, e tocando seus próprios sinos."] Conseguimos impor a promoção das mulheres nas empresas, mais lugares nas creches, auxílio para os pais que cuidam dos filhos. Sentimo-nos emancipadas e consideramos a questão resolvida. E não notamos a lenta infiltração dos velhos padrões.

O mundo cor de rosa da Barbie reconquistou o quarto das meninas. E com o enorme sucesso do programa de casting apresentado por Heidi Klum, Germany's Next Topmodel, em 2006, o questionamento crítico dos ideais de beleza feminina estava definitivamente fora de moda. A revolução digital promoveu a erosão viral da suposta consciência esclarecida. Desde 2013 pode-se ver no Youtube, com mais de 1 bilhão de cliques, o videoclip Wrecking Ball, no qual Miley Cyrus, lasciva, nua e magra, cavalga uma bola de demolição.

Mesmo que a cantora hoje se arrependa de sua performance, meninas sofrem muito mais hoje com distúrbios alimentares do que há dez anos. Também a blogueira Laurie Penny, que deu novos ares ao feminismo com escritos radicais, como Meat market (Mercado de carne), sofreu de anorexia nervosa quando tinha 17 anos. Hoje essa britânica expõe de forma implacável os mecanismos patriarcais que ainda espreitam por trás das fachadas de boas aparências do mundo ocidental.

Isso tudo não surpreende, pois, ao longo de séculos, os papéis de homens e mulheres foram transmitidos até o último canto da nossa existência, implantados no nosso consciente e inconsciente. Há cem anos, as mulheres conquistaram o direito de votar na Alemanha. E ainda hoje nós, mulheres, ganhamos menos e pagamos mais. Estamos em clara minoria na política, na economia e na cultura. Não temos os mesmos direitos nem mesmo no mundo ocidental. Ainda não. Trump, Weinstein e outros nos acordaram com um susto. Também a campanha Time's Up é um sinal importante. Ela mostra que a era da repressão acabou. Estamos despertas, estamos atentas – e continuamos a luta: 2018 é o ano das mulheres!

Susanne Lenz-Gleissner é vice-diretora do Departamento de Cultura e Comportamento da DW.

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