O real preço da carne

Karin Jäger (rk)

"Atlas da carne" alemão alerta para o consumo excessivo de produtos de origem animal e soa alarme sobre efeitos do consumo desenfreado nas mudanças climáticas.A população mundial dobrou nos últimos 50 anos. E a produção de carne triplicou no mesmo período. Uma tendência que tem efeitos fatais: desencadeia fome, pobreza, dificulta a proteção do clima e da biodiversidade.

Esse é o panorama traçado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) sobre o consumo mundial de carne.

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Em 2016, cada alemão consumiu, em média, 59 kg de carne – cerca de 1,5 kg a menos que no ano anterior, mas quase nada menos que há dez anos. A Associação Alemã de Nutrição recomenda, no máximo, a metade disso.

Hoje em dia, praticamente não dá mais para comer carne com a consciência tranquila. A sociedade discute de forma controversa sobre o consumo de carne bovina, suína e de aves.

Alguns apostam no princípio do low carb (baixos carboidratos), comendo grandes quantidades de carne, peixes, ovos e produtos lácteos. Outros se transformaram em veganos convictos, consumindo grãos, saladas e legumes e rejeitando de forma consequente pernis, filés e até ovos. O bem dos animais passou a fazer parte de uma consciência tranquila.

Essa mudança de tendência também é uma reação ao Fleischatlas ou "Atlas da carne", publicado anualmente na Alemanha desde 2013. O objetivo de organizações protetoras dos animais é informar os consumidores sobre os danos ecológicos e sociais ligados à produção industrial de carne.

Produzido pela Fundação Heinrich-Böll, pela organização pró-ambientalista Bund e pela edição alemã do francês Le Monde Diplomatique, o catálogo apresenta soluções com o objetivo de reduzir o consumo de carne, aumentar a conscientização das pessoas para que desfrutem de produtos de maior qualidade e também fazer com que elas valorizem mais os animais e os produtos que originam.



Aquecimento global

"Para nenhum outro produto de consumo do mundo se usa tanta terra quanto para a produção de carne e de leite", escreve Christine Chemnitz no "Atlas da carne". Apesar de a humanidade precisar de apenas 17% de calorias provenientes de produtos animais, estes ocupam 77% das terras agrícolas globais", explica a relatora para política agrária internacional da Fundação Heinrich-Böll. E a tendência é de expansão.

As consequências são monoculturas, solos esgotados após a utilização maciça de fertilizantes e pesticidas, extinção de espécies, doenças da população rural e escassez de água.

Mas um efeito pouco conhecido da produção de carne e de leite é a consequência para o aquecimento global. Para produzir alimentos, imensas áreas de terra adicionais são cultivadas de forma intensa. Para isso, há desmatamento de florestas e drenagem de pântanos – biomas que, normalmente, servem para armazenar gás carbônico.

Christine Chemitz faz referência à FAO, que vê na pecuária praticada por pequenos agricultores uma importante fonte de renda em países em desenvolvimento. A rápida industrialização da pecuária e o comércio mundial de carne destroem a fonte de subsistência desses camponeses, afirma Chemitz no relatório.

Assim, segundo a especialista, tanto os objetivos sociais da Agenda 2030 das Nações Unidas quanto o combate à fome e à pobreza se tornam cada vez mais difíceis de serem alcançados.

Marketing político

O professor Achim Spiller, da Universidade de Göttingen, estuda a educação nutricional para a redução do consumo de carne e diz sentir falta de programas educacionais e de informação de iniciativa estatal.

"As pesquisas mostram que campanhas de informação sobre temas relacionados à alimentação só tem sucesso lento, dependendo da pressão da mídia, da criatividade e da força de persuasão dos argumentos", constata.

Dois terços dos consumidores, segundo Spiller, não têm consciência da ligação entre o consumo de produtos de origem animal e as mudanças climáticas. Rótulos com informações sobre o respeito ao bem dos animais ou uma etiqueta mostrando um semáforo para esclarecer o nível "saudável" da comida e sobre a pegada ecológica (soma de gases nocivos à atmosfera que são emitidos pela criação, pela produção e pelo transporte dos produtos) poderiam, de acordo com o professor, facilitar a compra sustentável.

A ampliação e promoção de refeições vegetarianas em cantinas escolares e universitárias e a possibilidade de escolher porções menores de carne (permitindo também repetir a dose sem pagar) seriam outras alternativas que contribuiriam para mudar gradualmente os hábitos alimentares da população, acredita o estudioso.



Sopa com carcaça de frango

Se alguém quer comer carne, que coma absolutamente tudo! Antigamente, se transformava praticamente todas as partes de um animal abatido. Hoje em dia, pés de frango e cabeças de porco são enviados da União Europeia para o Oriente Médio ou a África, enquanto lombos e filés de boa qualidade são vendidos nos supermercados. Apenas entre 40% e 55% de um animal é aproveitado na produção industrial.

Chefs de cozinha de renome e abatedouros artesanais tentam resistir a essa produção. Costumam aproveitar todas as partes comestíveis do animal, "do focinho ao rabo". Para fazer uma sopa rica em nutrientes minerais, cozinham ossos e tutano, ou vértebras de frango, durante horas. Faz tempo que rins, tripas, rúmen (primeiro compartimento do estômago de ruminantes), estômago e língua não servem mais nem para fabricar comida para cães.

O aproveitamento completo com miúdos, ossos e cartilagem não tem utilidade apenas ecológica, mas também econômica: ajuda a expressar a valorização dos animais abatidos.

Mas, em pouco tempo, a carne também poderá vir do laboratório – e se tornar uma alternativa à pecuária: válvulas cardíacas e pele já são criados há bastante tempo por meio da multiplicação de células e reprodução de tecidos. Células-tronco de músculos que são retirados de animais por biópsias são multiplicadas in vitro para formar células musculares que podem se fundir em fibras musculares e de carne. Para produzir um hambúrguer, pesquisadores precisam de 20 mil dessas fibras.

E a diversidade de produtos vegetarianos como substitutos de carne também vem crescendo nos últimos anos.



Galinhas como pesticidas naturais

Na Alemanha, em vez de especulações futuras sobre o consumo de carne, partiu-se para a ação em 2007, concretizando o decreto do governo daquele ano para promover a biodiversidade. Pelo menos 2% da superfície do país precisam se tornar áreas silvestres.

A ação do homem deve ser reduzida a um nível que não ultrapasse o estritamente necessário, e a criação de animais rurais ungulados (de casco) podem ajudar a criar paisagens com mato e árvores nessas áreas silvestres – que podem se tornar o lar de várias espécies.

Há vários anos, donos de pomares experimentam novas formas de criar gado. Mantêm seus animais em pomares, florestas e até entre instalações técnicas. Os animais comem grama e ervas selvagens – o que elimina o uso de herbicidas.

Alternativa também é criar mais galinhas em pomares, vinhedos e viveiros de árvores para combater naturalmente os parasitas e garantir seu alimento – contanto que se possa manter o terreno livre de raposas e cães. As galinhas comem os insetos, e suas fezes ricas em sais minerais têm efeito de adubo. O "Atlas da carne" contém 50 páginas com soluções para uma criação de animais mais sustentável e para um consumo consciente de produtos de origem animal.

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