Papa pede perdão a vítimas de abusos sexuais no Chile

Perante autoridades, Francisco afirma sentir dor e vergonha por "dano irreparável" causado a crianças por integrantes da Igreja Católica. Primeira viagem do pontífice ao Chile é marcada por protestos.Em viagem ao Chile, o papa Francisco pediu nesta terça-feira (16/01) perdão às vítimas de abusos sexuais cometidos por integrantes do clero chileno. O pedido foi feito durante um encontro com membros do corpo diplomático e políticos, no primeiro ato de sua visita ao país sul-americano.

"Não posso deixar de manifestar a dor e a vergonha que sinto perante o dano irreparável causado às crianças por integrantes da Igreja", disse Francisco, durante um discurso na sede da presidência chilena, o Palácio de la Moneda.

As palavras do papa foram recebidas com aplausos pelas cerca de 700 pessoas que estavam reunidas no Pátio das Laranjeiras. "Quero me unir a meus irmãos no episcopado, já que é justo pedir perdão e apoiar com todas as forças as vítimas, ao mesmo tempo em que temos que nos empenhar para que isso não se repita", disse o pontífice, que, no entanto, não mencionou a palavra abuso.

A viagem do papa reacendeu o escândalo de pedofilia envolvendo padres católicos no Chile. A organização Bishop Accountability, que documenta casos de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica, publicou nesta segunda-feira uma lista com os nomes de 80 sacerdotes e clérigos e de uma freira acusados de abusos sexuais a menores de idade no país sul-americano.

Os chilenos também protestam contra a decisão de Francisco de nomear em 2015 o bispo Juan Barros, que teria ajudado a acobertar os abusos sexuais do reverendo Fernando Karadima. Os laicos da diocese de Osorno, no sul do Chile, pedem há meses a destituição do sacerdote.

Em 2011, o Vaticano considerou Karadima culpado de abusar sexualmente de dezenas de menores ao longo de décadas. O reverendo, porém, foi condenado apenas a uma vida de oração e penitência.

Alvo de protesto

Após o encontro com políticos e diplomatas, Francisco se reuniu por 25 minutos, em particular, com a presidente Michele Bachelet e depois foi apresentado à mãe da governante, que foi torturada durante a ditadura militar de Augusto Pinochet.

A reunião foi, para Bachelet, sua despedida do pontífice como chefe de Estado, já que em março o presidente eleito do Chile, Sebastían Piñera, tomará posse de seu cargo. Francisco também cumprimentou o presidente eleito em seu discurso para as autoridades.

Depois do encontro com as autoridades, o papa celebrou uma missa para 400 mil pessoas no Parque O'Higgins, em Santiago. Pouco antes do início do evento, a polícia dissolveu um protesto, convocado por várias organizações sociais, contra a visita do pontífice ao país.

Cerca de 20 de pessoas foram detidas no protesto, que não foi autorizado e contou com a participação de aproximadamente 250 pessoas, que tentaram marchar até o Parque O'Higgins. Os manifestantes levavam cartazes com dizeres como "Papa: os pobres marcham contra as migalhas desta democracia" e "a paz não pode ser oferecida por um cúmplice que ajuda e acolhe o estuprador".

Na missa, Francisco enalteceu a capacidade de se reerguer do povo chileno. O papa destacou ainda a felicidade "daqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz" e daqueles que "se esforçam para não semear a divisão". Segundo ele, esta "é a única maneira que tecer um futuro de paz".

"Construir a paz é um processo que convoca e estimula a nossa criatividade para gestar relações capazes de ver no seu vizinho não um estranho, um desconhecido, mas um filho desta terra", acrescentou.

Igrejas atacadas

A ida do papa ao Chile também foi o estopim para uma série de atentados incendiários contra igrejas pelo país. Somente na madrugada de terça-feira ocorreram três ataques, elevando para nove o número de igrejas incendiadas desde a semana passada.

Dois ataques aconteceram em Cunco, a pouco mais de 700 quilômetros de Santiago, na região da Araucanía. As igrejas ficaram totalmente destruídas, segundo o comandante do Corpo de Bombeiros da localidade. A polícia investiga a autoria do crime. Araucanía é palco de um conflito entre comunidades indígenas, que exigem terras ancestrais, e empresas agrícolas.

Em Puente Alto, município que faz limite com Santiago, o ataque foi direcionado à Paróquia Mãe da Divina Providência, que sofreu danos consideráveis, segundo autoridades. De acordo com moradores da região, cinco pessoas lançaram bombas contra a porta do templo e depois queimaram bandeiras do Chile e do Vaticano.

Essa é a primeira viagem de Francisco ao Chile desde que assumiu o papado, em 2013. A programação prevê ainda a ida ao presídio feminino de San Joaquín, um encontro com religiosos e uma visita privada ao santuário de San Alberto Hurtado.

Na quarta-feira, Francisco viajará a Temudo, na região da Araucanía, território reivindicado pelo povo originário dos Mapuches, onde realizará uma missa no Aeroporto de Maquehue.

Além disso, o papa celebrará missa em Iquique na quinta-feira e depois viajará para o Peru, onde fará visitas institucionais e deve se deslocar a Puerto Maldonado para se encontrar com representantes dos povos da Amazônia.

CN/efe/lusa/dpa

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