Brexit Big Band: a trilha sonora de um megadivórcio

Doris Pundy (av)

Se tudo correr como planejado, dentro de dois anos o Reino Unido terá se desligado efetivamente da UE. Mas a decisão dos britânicos já inspira um projeto do multiartista Matthew Herbert, entre a música e a política.A separação mais importante das últimas décadas na Europa é tema do mais recente projeto musical do músico britânico Matthew Herbert. Papelada de divórcio, desajeitadas apresentações públicas conjuntas, a procura frenética pelas palavras certas, anos de separação: tudo isso é inspiração para ele. Até mesmo o empoeirado Artigo 50 do Acordo de Lisboa, a base legal para a saída do Reino Unido da União Europeia, foi transformado num número de jazz.

Porém Herbert e sua banda não elaboram musicalmente apenas os aspectos políticos do divórcio do século: em sua turnê pela Europa, eles também transformam em música tanto o noticiário dos jornais britânico sobre o Brexit quanto as reações da opinião pública.

"Obrigado, minha primeira-ministra é uma idiota.'"

"A votação sobre o Brexit foi um choque para mim, embora eu já esperasse o resultados", comentou Matthew Herbert, em entrevista à DW. Ele se encontra precisamente em Bruxelas, a cidade que se costuma chamar de "capital da Europa". "Eu contava com o resultado, mas, mesmo assim, fiquei totalmente abismado. Eu simplesmente tinha que fazer algo a respeito."

Pouco depois do referendo, ele já fundou a Brexit Big Band. "Minha intenção é provocar um diálogo", diz o europeu convicto. "O Brexit é, em geral, chato, pouco inspirado e idiota. Eu queria criar justamente o contrário disso."

Num dos primeiros concertos logo após a consulta popular, Herbert colocou uma bandeira britânica sobre os ombros. "De início, tive medo da reação do público. Mas quando notei que a maioria estava rindo, fiquei super aliviado."

Coros e orquestras locais, chegando a totalizar 100 músicos, o acompanham nas diferentes cidades em que se apresenta. No show em Bruxelas, como parte do Brussels Jazz Festival 2018, ele dividiu o palco com o holandês Netherlands Brexit Choir e a Brussels Jazz Orchestra.

A turnê traz também um componente pessoal para Matthew Herbert. "Nos últimos 20, 25 anos, fiz mais de 2 mil apresentações na Europa. Tenho muito a agradecer aos europeus que vieram aos meus concertos e compraram meus discos. É fantástico poder dizer: 'Muito obrigado, e a minha primeira-ministra é uma idiota.'"



Casa, nus, porcos, aviõezinhos, electro...

O músico e artista sonoro Matthew Herbert começou sua carreira mais de duas décadas atrás, produzindo e remixando música electro. Paralelamente, compunha trilhas sonoras para filmes e produções de TV. Nos últimos anos, ficou famoso por transformar em música praticamente tudo o que encontra pela frente. Assim, incorporou em seu electro tanto sons domésticos (álbum Around the house) quanto ruídos corporais (A nude – The perfect body).

A turnê europeia da Brexit Big Band não é a primeira vez que Herbert emite um sinal político com sua música. Ele empregou, por exemplo, gravações feitas num chiqueiro num protesto contra a indústria alimentar (álbum One pig). Contudo, quer como solista num chiqueiro, quer ao lado de 100 músicos no palco, todas as suas empreitadas têm um aspecto em comum: "Para mim, a questão é sempre o escutar."

Também em seu projeto atual, ele persegue o ideal de um diálogo equilibrado. Como "o noticiário sobre o Brexit é dominado por alguns magnatas do jornalismo, muitas vozes nem chegam a ser ouvidas", ele buscou meios de lhes fornecer uma plataforma.



Em seu último concerto em Londres, Herbert pediu ao público que escrevesse mensagens à Europa em folhas de papel, as dobrasse como aviões de papel e atirasse em direção ao palco. Ao se apresentarem em Bruxelas, ele e seus músicos atiraram os aviõezinhos em meio ao público. O som das mensagens voadoras será eternizado no disco do Brexit.

Herbert estreou agora em Bruxelas sua mais nova composição, abordando a shitstorm que vivenciou nas redes sociais, nos meses recentes. Veículos britânicos noticiaram que o artista receberia subvenções da indústria fonográfica britânica para seu projeto – o que suscitou críticas ferozes por parte dos defensores do Brexit.

Desde então, ele enfatiza que sua big band não é um projeto anti-Brexit: ele aceitou a retirada de seu país da União Europeia. "Sinto-me europeu. Tento prestar uma contribuição, em vez de querer reverter o referendo."

Vagando no Canal da Mancha

Durante cada concerto da turnê, são feitas gravações para o próximo disco, cujo lançamento já está marcado: 29 de março de 2019, a data em que, em princípio, os britânicos abandonarão a UE.

"Eu ainda torço para que o Brexit nunca aconteça", revela Herbert. "Para mim, isso é uma total perda de tempo." Os últimos meses mostraram, diz ele, que o governo britânico é incompetente e sem ideias, que agora está se dando conta de que o Reino Unido não pode sair da UE, sem mais nem menos. O músico calcula que levará anos, talvez décadas, até o Brexit se concretizar.

Caso o processo transcorra mais rápido, contudo, ele já tem um plano para o "dia D". "Vamos fazer um concerto no Canal da Mancha, numa barca transitando para lá e para cá entre o Reino Unido e a França. Espero que isso me distraia bastante, para que eu perceba o mínimo possível do que está acontecendo."

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