Davos, um fórum cada vez mais político

Ricos e poderosos se encontram na cidade suíça para 48° Fórum Econômico Mundial. Em tempos de crescente populismo e protecionismo, foco neste ano recai inevitavelmente sobre temas da política."Criando um futuro compartilhado num mundo fraturado" é o lema do 48° Fórum Econômico Mundial (FEM), que se inicia nesta terça-feira (23/01), em Davos.

Isso soa, a princípio, como uma tentativa de se diferenciar claramente dos apoiadores do populismo e do nacionalismo. A elite empresarial global reunida na Suíça prefere fazer negócios de forma transnacional.

Mas o fórum não seria tão bem-sucedido se assumisse sempre uma posição clara como organização. Assim, o encontro deste ano está cercado de nacionalistas.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que se autodenomina um nacionalista hindu, faz o discurso de abertura. A fala final, na sexta-feira, fica por conta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defende para seu país a política protecionista de "Primeiro a América".

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Para o fundador e CEO do FEM, Klaus Schwab, isso não é uma contradição com os valores do fórum, muito pelo contrário. Ele disse ver Davos como lugar ideal para reunir pessoas com diferentes pontos de vista, como no caso do tema da cooperação global.

"Aqui tudo gira em torno do comércio, meio ambiente, luta contra o terrorismo, sistemas fiscais e competitividade", listou Schwab. "E é extremamente importante ter o presidente Trump conosco."

No ano anterior, o presidente da China, Xi Jinping, apresentou-se em Davos como defensor do livre-comércio, embora seu governo seja abertamente protecionista, já que resguarda partes da economia da concorrência internacional.

Agora, Trump pode aproveitar a oportunidade para explicar à elite ali reunida por que sua política está de acordo com o lema oficial do FEM de "melhorar a situação mundial".

Sessões diplomáticas

Trump não é o único representante do governo dos EUA – oito membros do seu gabinete vêm a Davos, incluindo o secretário de Estado americano, Rex Tillerson. Não há informações oficiais sobre os custos de viagem. Um jornal suíço estimou os gastos em até 40 milhões de dólares, observando que Bill Clinton foi acompanhado por um total de 1.500 pessoas, inclusive pessoal de segurança, em sua visita a Davos em 2000.

Além de Trump e Modi, cerca de 70 chefes de Estado e governo anunciaram presença, incluindo a chanceler federal alemã, Angela Merkel; o presidente francês, Emmanuel Macron; a primeira-ministra britânica, Theresa May, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

"Temos praticamente uma cúpula europeia aqui", disse o presidente do FEM, Borge Brende. "Há dez chefes de Estado e governo da África, nove do Oriente Médio e seis da América Latina, mais do que nunca", acrescentou.

Além deles, também virão os chefes de quase 40 organizações internacionais, da ONU, FMI e Banco Mundial ao Greenpeace e Oxfam.

O presidente Michel Temer também estará em Davos, onde vai discursar nesta quarta-feira e conversar com investidores, a quem deverá apresentar o programa de concessões e privatizações do governo federal. A expectativa é captar 130 bilhões de reais com esses projetos, afirmou o porta-voz da presidência, Alexandre Parola.

Além de centenas de rodadas públicas e semipúblicas de palestras, também haverá pela primeira vez eventos fechados em Davos. Estas "sessões diplomáticas" abordarão áreas de conflito – da Síria, Coreia e Oriente Médio à situação no Chifre da África.

O foco mais forte em temas políticos pode remontar à influência de Borge Brende. O ex-ministro do Exterior norueguês foi nomeado presidente do FEM no final de 2017 e, desde então, é visto como o sucessor de Klaus Schwab, que fundou o Fórum em 1971 e vai completar 80 anos em março próximo.

O diretor-geral do FEM, Philipp Rösler, ex-ministro alemão da Economia, ex-vice-chanceler federal e ex-presidente do partido FDP, também parecia ter esperanças de ser nomeado sucessor de Schwab. No final de 2017, ele anunciou a sua saída do fórum e dirige agora uma fundação que detém cerca de um terço das ações do conglomerado chinês HNA.

Problemas da globalização

Embora o Fórum Econômico Mundial em Davos seja considerado a reunião anual da elite mundial do dinheiro e do poder, ele também oferece espaço para refletir sobre os problemas da globalização.

A poluição, a distribuição equitativa, a insegurança dos postos de trabalho e o futuro dos sistemas sociais ocupam grande espaço na longa lista de temas. Entre os 3 mil participantes estão muitos cientistas, inclusive 12 vencedores do Prêmio Nobel.

"Hoje existe o perigo real de que nossos sistemas globais se desmoronem", disse Klaus Schwab. "Mas as mudanças não acontecem assim tão facilmente. Cabe a nós melhorar a situação mundial – e é isso que o Fórum Econômico Mundial representa."

A argumentação é típica de Schwab: ele descreve a situação atual como extremamente grave, sem abordar a corresponsabilidade daqueles que se reúnem regularmente em Davos. Em vez disso, ele usa o diagnóstico como argumento para a crescente importância do fórum.

Por outro lado, alguns veteranos de Davos descrevem a importância original do fórum da seguinte forma: a visita aos Alpes suíços economiza tempo e dinheiro, já que substitui meses de viagem. Todos aqueles cujas palavras têm peso se encontram por alguns dias no mesmo vilarejo suíço coberto de neve.

Para os políticos presentes, Davos tem o charme adicional de que as reuniões ali podem se realizar sem as irritantes declarações de cúpula, às quais se chega apenas com muito esforço. Eles podem simplesmente se expressar, trocar ideias. E isso – não se pode negar – não faz o mundo pior.

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